Dois técnicos históricos, filosofias diferentes, dezenas de títulos e uma relação que começou na amizade, mas descambou para uma rivalidade, tensa muitas vezes, que dura há 12 anos.

Se hoje o português e o espanhol já são capazes de sorrir um para o outro, de trocar elogios, no passado houve até troca de insultos, numa rivalidade que tocou no ‘vermelho’ quando o catalão comandava o Barcelona e o setubalense era o timoneiro do Real Madrid. Os dois levaram os duelos entre Barça e Real a patamares difíceis de igualar. Os 55 títulos entre ambos (30 para Guardiola e 25 para Mourinho) atestam bem a influência dos dois no futebol.

Influências: da periodização tática ao ‘Cruyffismo’

Nascido a 26 de janeiro de 1963, em Setúbal, José Mourinho é filho de Félix Mourinho, antigo jogador e treinador de futebol. Depois de uma carreira mediana como jogador, formou-se em Educação física na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, onde é doutor 'Honoris Causa'.

Como treinador, começou no Benfica, onde fez 11 jogos na época 2000/01, mas acabou na União de Leiria, clube que conduziria até ao 5.º posto (à frente do Benfica), antes de mudar para o FC Porto. Nos 'dragões', foi campeão nas duas épocas completas que realizou ao leme do clube e conquistou uma Taça UEFA e uma Liga dos Campeões, antes de mudar para o Chelsea, onde viria a ser campeão. Foi ainda campeão no Inter Milão em Itália (além de vencer a Champions), no Real Madrid em Espanha e levou o Manchester United a vencer a Liga Europa.

 FOTOS: a carreira de José Mourinho em 12 imagens marcantes

Mourinho é um 'self made man'. "Fiz de tudo. Comecei como apanha bolas, fui jogador e fui analista do meu pai no Vitória [de Setúbal]. Apanhava o autocarro em Setúbal e ia para Lisboa, com 14 anos, analisar adversários, porque ele nem adjuntos tinha. Escrevia tudo em papel e metia autocolantes com os números dos jogadores", recordou o técnico em junho de 2017, numa palestra aos alunos de uma pós-graduação internacional de futebol na FMH.

Ao longo da sua carreira, José Mourinho foi 'bebendo' as influências de vários treinadores, principalmente Bobby Robson, com quem começou a trabalhar, primeiro como tradutor, mas que rapidamente o colocou a adjunto. Acompanhou o técnico inglês no Sporting, FC Porto e Barcelona, onde ficaria a trabalhar com outro 'mestre', Louis Van Gaal, após a saída de Robson. Foi no emblema catalão que se cruzou com Guardiola.

Josep Guardiola i Sala, nascido a 18 de janeiro de 1971, em Santpedor, fez toda a sua formação futebolística como médio do Barcelona. Após vários anos nos escalões de formação, chegou à equipa sénior aos 20 anos, onde foi treinado durante largas épocas pelo mítico Johan Cruyff, técnico holandês que influenciou a sua carreira.

Pep Guardiola, quando era jogador do Barcelona, num jogo frente ao Real Madrid
Pep Guardiola, quando era jogador do Barcelona, num jogo frente ao Real Madrid créditos: CHRISTOPHE SIMON / AFP

Depois de ter começado por treinar a equipa B do Barcelona em 2007/2008, Pep Guardiola foi escolhido para comandar a equipa principal na época seguinte. Promoveu vários jogadores da 'cantera' como Pedro Rodriguez, Bojan Krkic, Thiago Alcântara, Sérgio Busquets, Gerard Piquè e criou uma das equipas mais entusiasmantes da história do futebol, guiada pelo talento de Lionel Messi. No ano seguinte à sua chegada, Guardiola venceu todos os títulos que disputou em 2009: Campeonato Espanhol, Taça do Rei, Supertaça Espanhola, Champions League, Supertaça Europeia e Mundial de Clubes.

Filosofias: 'tiki-taka' vs contra-ataque

A rivalidade entre estes dois grandes nomes do futebol atual também se explica pelas suas filosofias e identidades distintas: Guardiola mais fiel a uma ideia, Mourinho a adaptar-se aos vários contextos e aos jogadores à disposição. O espanhol é conhecido pela forma como revolucionou as posições dos jogadores em campo, onde há muita liberdade, com disciplina. Em posse, os laterais juntam-se aos médios no centro, os extremos jogam abertos nas alas, o avançado é um falso 9 com muita mobilidade. O objetivo é circular a bola com critério, fazer o adversário deslocar-se e sair da sua posição, antes de atacar os espaços criados.

"Guardiola foi mais uniforme desde que apareceu, desde o Barcelona e depois no Bayern Munique e Manchester City, sempre com nuances diferentes, mas com um ADN bem claro: privilégio à posse de bola, ao ataque posicional, reação logo à perda da bola para evitar o contra-ataque adversário. Pode variar o sistema tático, mas o ADN é claro: o 'tiki-taka' que ele criou no Barcelona é o mesmo que se vê hoje no Manchester City ", explica João Almeida Rosa, treinador, comentador e analista de futebol.

"Na atualidade, é justo dizer que Mourinho é um treinador muito mais defensivo que Guardiola. É difícil comparar os dois porque a filosofia de jogo de ambos é completamente diferente", completa o analista.

Outro ponto que os distingue é a relação com os jogadores. E também nisso, há diferenças significativas até porque Mourinho foi variando a sua abordagem ao longo dos anos. Mas continua a ser um técnico que tira tudo dos seus atletas, que os faz crer que podem dar mais do que o habitual, que podem ir mais além.

Guardiola pode variar o sistema tático, mas o ADN é claro: o 'tiki-taka' que ele criou no Barcelona é o mesmo que se vê hoje no Manchester City

Numa entrevista ao jornal 'Metro', o guarda-redes Dudek, que fazia parte da equipa do Real Madrid que levou 5-0 do Barcelona, recordou as palavras do português no final daquela humilhação em casa do rival.

"Não quero que fiquem em casa. Saiam com as vossas famílias, com os vossos amigos e caminhem pela cidade. Ensinem ao mundo como superam a derrota. Superámos aquela derrota mais rápido do que esperávamos. Entendi pela primeira vez a importância da psicologia no mundo do desporto. José Mourinho é um especialista em psicologia", recordou o antigo guardião polaco.

Se dantes a maior parte dos atletas diziam que davam a vida pelo português, nos últimos anos a sua relação com alguns jogadores tem sido mais marcada por conflitos. No Tottenham teve problemas com Ndombelé, Danny Rose e Dele Alli. No United ficou famosa a 'guerra' com Paul Pogba. No Chelsea não se deu bem com Kevin de Bruyne.

Para João Almeida Rosa, esta "é uma das questões que tem levado a que o seu sucesso não seja tão grande". A sua "capacidade de liderança, de conduzir o grupo ao encontro do que pretendia" era um dos "grandes alicerces das suas equipas," mas isso mudou.

"As novas gerações, não digo que são mais mimadas, mas são mais sensíveis. Como treinador, sinto isso. Eu que joguei e fiz a formação como jogador, aceitava um tipo de liderança que os miúdos hoje em dia já não aceitam. É uma liderança muito menos autoritária. O Mourinho tem tido mais dificuldades em lidar com jogadores de hoje em dia do que com os que apanhou quando apareceu", recorda.

Evolução da rivalidade: amigos, inimigos e.… muito respeito

Entre 1996 e 2000, Mourinho e Guardiola trabalharam juntos, mas de lados diferentes da barricada. O português era adjunto no Barcelona, o espanhol um dos principais jogadores da equipa, o 'farol' de ideias do emblema catalão no meio-campo. Há imagens da época onde se vê os dois a rirem, a trocarem ideias.

José Mourinho e Guardiola
José Mourinho e Guardiola, nos tempos do Barcelona

Se hoje em dia até têm uma relação cordial, no passado, nem sempre foi assim. E tudo terá começado com uma ‘troca de cadeiras’ que não aconteceu. No livro ‘Fear and Loathing in La Liga', sobre a história da rivalidade entre Real Madrid e Barcelona, escrito pelo jornalista Sid Lowe, é descrito que José Mourinho chegou a ser entrevistado em Lisboa para ocupar o lugar do holandês Frank Rijkaard, despedido do Barcelona em 2008. O português até terá recomendado Guardiola para seu adjunto, conhecedor das capacidades do jovem espanhol. Mas a escolha, patrocinada por Johan Cruyff, acabou por recair em Guardiola, que comandava a equipa B dos catalães. Algo que não terá caído bem no português.

Viriam a encontrar-se em campo como treinadores pela primeira vez a 16 de setembro de 2009, na fase de grupos da Liga dos Campeões: Pep Guardiola como técnico do fantástico Barcelona, equipa que acabara de ganhar tudo o que havia para ganhar, e José Mourinho, a tentar colocar o Inter Milão nos grandes palcos.

José Mourinho é um especialista em psicologia

Foi o primeiro dos quatro encontros entre ambos nessa época. Na fase de grupos houve empate 0-0 em Milão e vitória 2-0 do Barça em Camp Nou, nas meias-finais da prova a história foi diferente: o Inter de Mourinho venceu em casa por 3-1 e perdeu fora por 1-0, apurando-se assim para a final da liga milionária, onde viria a bater o Bayern Munique no Santiago Bernabéu, Madrid, e sagrar-se campeão europeu pela segunda vez.

A relação entre Mourinho e Guardiola viria a transformar-se com a mudança do português para Madrid, no verão de 2010. Florentino Pérez viu em Mourinho a figura que podia acabar com hegemonia do Barcelona de Guardiola em Espanha.

"Estou absolutamente convencido de que a incorporação de Mourinho, que é um dos melhores do mundo, senão o melhor, é uma oportunidade que o Real, que sempre luta pela excelência, não podia desperdiçar", disse, na altura, o presidente dos merengues, na apresentação do técnico português.

Foram os piores anos da vivência entre os dois técnicos, com provocações, insultos de parte a parte, que fizeram correr muita tinta. El Classico ganhou contornos mediáticos nunca antes vistos: o mundo parava nos dias de jogo entre Real Madrid e Barcelona. Em campo, a batalha entre Cristiano Ronaldo e Messi, os jogadores que dominavam nos prémios individuais, no banco, os dois melhores treinadores daquela época. Mourinho tentava, de todas as formas, travar o 'tiki-taka', a 'marca de água' do Barcelona de Guardiola, difícil de contornar.

Em 2011 houve uma 'barrigada' de El Classico: sete embates entre Mourinho e Guardiola

E logo no primeiro confronto, Guardiola tratou de mostrar a Mourinho que teria de fazer muito para bater uma equipa oleada e que parecia imbatível. 5-0 no Camp Nou na 13.ª jornada da Liga Espanhola, a 29 de novembro, na maior derrota da carreira de Mourinho. O jogo acabou com Sérgio Ramos expulso após agressão a Messi e a sair de campo a agredir Xavi e Puyol, abrindo uma 'ferida' ainda maior na relação entre os dois clubes e que viria a marcar os clássicos dos anos seguintes.

"Humilhação, não. Foi a maior derrota. Nunca tinha perdido por 5-0, mas trata-se de uma derrota muito fácil de digerir, porque não houve possibilidade de ganhar", disse na altura, José Mourinho, quando questionado sobre o pesado resultado.

Nesse ano de 2011 os adeptos do futebol puderam assistir a sete episódios marcantes de El Classico, com Mourinho a vencer a Taça do Rei no prolongamento, em Valência, e Guardiola a levar a Liga Espanhola e a Liga dos Campeões, depois de afastar o Real Madrid nas meias-finais (2-0 em Madrid e 0-0 em a Camp Nou). Na Supertaça de Espanha, 2-2 no Santiago Bernabéu e 3-2 para o Barça na Catalunha e mais um troféu conquistado por Guardiola a Mourinho.

E quando os dois mediram forças na 16.ª ronda da La Liga 2011/12 em dezembro, a festa voltou a ser culé: 3-1 para o Barcelona em pleno Santiago Bernabéu. Mas no final seria Mourinho a fazer a festa, ao conquistar o Campeonato com uns impensáveis 100 pontos, mais nove que o Barcelona, e 121 golos marcados.

Fotos: imagens dos encontros entre os mestres da tática

Em 2012 mais três episódios da rivalidade Mourinho vs Guardiola. Os dois cruzaram-se nos quartos de final da Copa do Rei, com nova vantagem do catalão: vitória 2-1 em Madrid e 2-2 em casa. Na Liga, o Real Madrid consegue finalmente vencer o Barcelona e logo em Campo Nou, por 3-1, mas é o Barcelona quem se sagra campeão, fazendo os 100 pontos que o Real Madrid tinha somado na edição anterior, mas deixando os merengues a 15 pontos.

Dos 11 jogos entre ambos em Espanha, Guardiola somou cinco vitórias contra dois de Mourinho.

No final da época 2011/202, muito desgastado com a 'guerra' frente a Mourinho, Guardiola deixa o Barcelona e tira um ano sabático, antes de se mudar para o Bayern Munique, campeão. Com os bávaros vence o Chelsea de José Mourinho nas grandes penalidades (5-4), depois de um 2-2 nos 120 minutos, a 30 de agosto de 2013, e conquista a Supertaça Europeia.

Os últimos nove embates entre estes dois mestres da tática aconteceram em solo inglês, a partir de 2016/17. A chegada de Pep Guardiola a Inglaterra gerou uma enorme expetativa, mas também receio que a 'guerra' travada com Mourinho em Espanha fosse transportada para a Premier League. É nesta passagem que se normaliza a relação entre ambos, longe dos insultos e provocações dos anos de Madrid-Barça. Mas levou o seu tempo.

Pep, ao comando do riquíssimo Manchester City, e José Mourinho, primeiro num Manchester United à procura de renascer, e, por último, no Tottenham, uma equipa que tenta acompanhar os 'grandes' de Inglaterra, mas que não vence qualquer título há muitos anos. Dos seis jogos disputados entre ambos nos dois maiores clubes de Manchester, Guardiola venceu três, Mourinho dois.

Humilhação, não. Foi a maior derrota. Nunca tinha perdido por 5-0, mas trata-se de uma derrota muito fácil de digerir, porque não houve possibilidade de ganhar

Com Mourinho no Tottenham a partir dos finais de 2019, o português venceu dois dos três encontros com Guardiola, que somou um triunfo frente ao Tottenham, no último jogo entre ambos para a Premier League.

Os números da rivalidade

Como técnicos, Mourinho e Guardiola defrontaram-se em 25 ocasiões, com 11 vitórias para Guardiola (40 golos marcados), sete para Mourinho (29) e sete empate entre ambos.

São também os técnicos mais titulados do futebol mundial em atividade. Mourinho conta com 25: duas Liga dos Campeões (FC Porto e Inter), duas Liga Europa (FC Porto e Manchester United), duas Liga Italiana, uma Taça de Itália e uma Supertaça de Itália, todas pelo Inter Milão; três Liga Inglesa (Chelsea), uma Taça de Inglaterra (Chelsea), quatro Taça da Liga Inglesa (três no Chelsea e uma no United) e duas Supertaça de Inglaterra (Chelsea e United); uma Liga Espanhola, uma Taça de Espanha e uma Supertaça de Espanha, todos no Real Madrid; duas Liga de Portugal, uma Taça de Portugal e uma Supertaça de Portugal, todos pelo FC Porto.

Além disso, tem ainda mais quatro troféus de Treinador Mundial do Ano: 2003 (FC Porto), 2004 (Chelsea), 2009 (Inter) e 2011 (Real Madrid).

Guardiola, mais novo que Mourinho e com menos anos de treinador, é técnico mais titulado do mundo em atividade, com 30 troféus ganhos. Duas Liga dos Campeões (Barcelona), três Mundiais de Clubes (dois no Barça e um no Bayern), duas Liga Inglesa, uma Taça de Inglaterra, três Taça da Liga Inglesa, três Supertaças de Inglaterra, todas no City; três Liga Espanhola, três Supertaças de Espanha e duas Taças de Espanha, todos no Barcelona; três Liga alemã, duas Taça da Alemanha pelo Bayern Munique; três Supertaça Europeias (duas no Barça e um no Bayern).

Conta também com dois troféus individuais: Treinador Mundial do Ano em 2008 e 2010, todos no Barcelona.

Do banco à sala de imprensa: a 'guerra' também se faz pelas palavras

Ao terceiro embate, a primeira troca azeda de palavras. Após o 3-1 do Inter de Mourinho sobre o Barcelona de Pep Guardiola, na primeira-mão das meias-finais da Liga dos Campeões de 2009/10, José Mourinho ter-se-á dirigido da sua zona técnica para a do seu homólogo do Barcelona, quando este protestou uma ação na área do Inter, levando Mourinho um dedo à têmpora, num sinal de incongruência no protesto de Guardiola.

Pep Guardiola e José Mourinho
Pep Guardiola e José Mourinho créditos: AFP

"Conheço-o há muito tempo e não vou investir nem um segundo no que se passou para me desgastar. É um bom treinador. Somos uma grande instituição e uma referência para muitos jovens. Não vou perder a concentração com isto", disse Guardiola, a propósito do incidente com o treinador português.

Pep Guardiola é um treinador fantástico de futebol, mas ganhou uma Champions que eu teria vergonha

A 06 de novembro de 2010, depois de Guardiola ter criticado o Atlético Madrid por, frente ao rival Real Madrid, não colocar em campo a mesma agressividade usada frente ao Barcelona, Mourinho não perdeu tempo e 'deu o troco'.

"Frente ao Real Madrid todas as equipas jogam o seu melhor, ao máximo do seu potencial, com uma diferença fundamental: normalmente, o Real Madrid joga contra 11 e há outras equipas que têm mais sorte do que nós e quase sempre acabam a jogar contra dez. Nós fazemo-lo contra 11", respondeu o português.

O ambiente aqueceu na época 2010/2011, nas meias-finais da Liga dos Campeões, a respeito dos nomes falados par apitar o jogo.

"Mais importante do que a designação do árbitro e a pressão feita para que não fosse Proença, é o facto de ter começado um novo ciclo. Até agora tínhamos um grupo de treinadores, muito pequeno, que não falava dos árbitros. E depois um que critica os árbitros quando erram, no qual estou inserido. Com as declarações de Guardiola, entrámos numa nova era, num novo grupo resumido a ele, que critica o acerto do árbitro. Nunca tinha visto isso", ironizou o técnico luso, a 26 de abril de 2011.

A resposta de Guardiola não se fez esperar: "Vou falar pela primeira vez, porque ele mencionou o meu nome. Sempre que o fizer, terá a minha resposta. Vou tratá-lo por tu porque ele me tratou por Pep. […] Fora de campo já me ganhou, dá-lhe gozo esta Champions fora das quatro linhas, por isso, que a desfrute e leve para casa. Nesta sala, ele é 'puto jefe' (chefe) o 'puto amo' (maior) e não quero competir com ele nem por um segundo", atirou.

No final, venceu o Barcelona em Madrid por 2-0 e colocou-se em boa posição para seguir em frente. Mourinho adotou um discurso derrotista e atacou o Barcelona.

"Pep Guardiola é um treinador fantástico de futebol, mas ganhou uma Champions que eu teria vergonha, com o escândalo de Stamford Bridge [vitória catalã com muitas críticas do Chelsea a arbitragem]. E este ano, se ganhar, será com o escândalo do Bernabéu. Eu teria vergonha de ganhar uma Champions assim. Sim, já estamos eliminados. Algumas vezes dá-me asco viver neste mundo, mas é o nosso mundo", criticou.

Na época 2011/12, houve 'faísca' nos jogos entre Barcelona e Real Madrid. Na segunda-mão da Supertaça de Espanha, onde o Real Madrid acabou novamente derrotado pelo Barcelona, José Mourinho colocou o dedo no olho de Tito Vilanova e, de seguida, em conferência de imprensa, referiu-se ao técnico adjunto de Guardiola como 'Pito'. A confusão surgiu depois da expulsão de Marcelo, do Real Madrid (Ozil, dos merengues, também foi expulso, tal como David Villa, do lado dos catalães).

Guardiola evitou comentar a polémica, mas alertou para a necessidade de se ‘colocar água na fervura’: "Cuidado, porque um dia magoamo-nos, não no campo, mas fora dele, e todos somos um pouco responsáveis", recordou.

O português fez ‘mea culpa’ ao seu estilo: "Quero dirigir-me aos adeptos do Real Madrid, e somente à comunidade madridista, para pedir desculpas pela minha atitude no último jogo".

Quando Pep Guardiola chegou à Inglaterra para treinar o Manchester City, Mourinho tratou logo de afastar qualquer tipo de rivalidade com o espanhol.

Fora de campo Mourinho já me ganhou, dá-lhe gozo esta Champions fora das quatro linhas, por isso, que a desfrute e leve para casa.

"A minha experiência não me permite ser inocente. Quero dizer com isto que estive com o Pep dois anos num campeonato onde o campeão era eu ou ele, ou o Real Madrid ou o Barcelona. Numa situação como essa, as lutas individuais fazem sentido, porque podem ter influência. Se no campeonato inglês eu me focasse nele e no Manchester City e ele no Manchester United era outro que ia ser campeão", afirmou Mourinho a 31 de maio de 2016, na Faculdade de Motricidade Humana, à margem da pós-graduação em treino de futebol de alto rendimento, na qual é coordenador.

"José [Mourinho] disse muito bem na conferência de imprensa: isto não é sobre mim ou sobre ele. Estamos focados nos nossos trabalhos. Conhecemo-nos muito bem e só posso dizer que, como treinador, ajudou-me a melhorar muito, como o fizeram Klopp ou Tuchel quando estava na Alemanha", afirmou Pep Guardiola na primeira conferência de imprensa em Manchester como treinador do City.

Guardiola vs Mourinho: cinco duelos memoráveis

Pep Guardiola e José Mourinho já se defrontaram em 25 ocasiões como treinadores: 11 vitórias para o espanhol, sete para o português e sete empates entre ambos. Estes cinco terão sido os mais memoráveis.

28 de abril de 2010: Barcelona 1-0 Inter Milão
O Barcelona tinha perdido na primeira-mão das meias-finais da Liga dos Campeões por 3-1 em Milão, num jogo onde o Inter castigou os culés em contra-ataque. O resultado dava alguma margem e Mourinho sabia que teria de sofrer para eliminar o poderoso Barcelona de Guardiola. O Inter jogou com menos um durante largos minutos (expulsão de Thiago Motta), perdeu por 1-0, mas seguiu para a final.

29 de novembro de 2010: Barcelona 5-0 Real Madrid
Não era esse o 'batismo' que Mourinho esperava nos confrontos com o Barça de Guardiola quando assumiu o comando do Real Madrid. Numa demonstração de força mental e tática, o Barcelona humilhou os merengues com uma 'manita', com golos de Xavi, Pedro, David Villa (2) e Jeffren. O nome da goleada surgiu depois de Abidal ter aberto as mãos mostrando os cinco dedos em direção à Cristiano Ronaldo.

27 de abril de 2011: Real Madrid 0-2 Barcelona
Pela primeira vez, o Real Madrid de Mourinho e o Barcelona de Guardiola mediam forças nas provas da UEFA (meias-finais da Champions). Sete dias antes, os merengues tinham derrotado os culés na final da Taça do Rei, com um golo de Cristiano Ronaldo no prolongamento, mas, no Bernabéu, voltou a dar Barça. Messi resolveu com dois lances individuais, o Barcelona ficou a um passo da final, que viria a vencer frente ao Manchester United.

17 de agosto de 2011: Barcelona 3-2 Real Madrid
Depois do 2-2 na primeira-mão da Supertaça em Madrid, o Barcelona venceu por 3-2 num jogo que teve de tudo: golos de Messi (dois golos) e Cristiano Ronaldo (um golo), três expulsões e muita confusão. Guardiola vencia mais um troféu. O golo da vitória catalã surgiu aos 88 minutos por Messi.

07 de abril de 2018: Manchester City 2-3 Manchester United
Num ano memorável para o City, a equipa de Guardiola poderia fazer a festa antecipada do título frente ao rival da cidade. A equipa do City, que até viria a sagrar-se campeão, fez uma grande primeira parte (golos de Kompany e Gündogan). O segundo tempo começou com 'olés' vindo das bancadas, mas os 'red devils' reagiram e venceram por 3-2, com um bis de Pogba e outro tento de Smaling.

Um lugar na história

Com as suas diferenças, a história irá sempre lembrar-se de Pep Guardiola e de José Mourinho: pelo que ganharam, pelas equipas por onde passaram e pelas suas ideias.

"Guardiola tem associado a si um estilo de jogo muito próprio, uma evolução do que eram as ideias de Johan Cruyff. Quando se falar de Guardiola, vai-se sempre falar deste tipo de futebol, que privilegiava a posse de bola, que subjugava o adversário ao seu meio-campo defensivo, que forçava os adversários a jogar recuado", diz-nos o analista de futebol, João Almeida Rosa.

De Mourinho ficam os feitos incríveis como vencer a Liga dos Campeões pelo FC Porto e Inter Milão, por revitalizar o Chelsea e ser campeão em Inglaterra, algo que não acontecia há 50 anos nos 'blues'. Mas também ficará um legado para os treinadores, principalmente os portugueses.

"Mourinho veio a ser o representante máximo no campo da periodização tática, teve sucesso retumbante com esta metodologia de treino, que consiste em treinar como se joga, quase sempre com bola, com especificidades", completa João Almeida Rosa.

No futuro, o mundo do futebol estudará as suas ideias, discutirá os legados de José Mourinho, o ‘Special One’, e Pep Guardiola, o inventor do ‘tiki-taka’. No futuro, haverá capítulos da história do futebol a falar de Mourinho e Guardiola. Por vários motivos.

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