A primeira vez que ouvi falar da presença de Jiu-Jitsu Brasileiro em Portugal foi no longínquo ano de 1998. Na altura praticava Kickboxing no Ginásio Superstar, que estava a organizar o primeiro evento de Vale-Tudo nacional com o professor Lauro Figueiroa – considerado o founding father do Jiu-Jitsu em Portugal. Figueiroa, a representar a arte suave, combateu e venceu o Mestre Pichote que defendia as cores da Capoeira.

Recordo-me que o mediatismo do evento de Vale-Tudo levou a que as atenções dos praticantes de artes marciais e desportos de combate se virassem com curiosidade para o Jiu-Jitsu. Ao nível internacional, o efeito era semelhante graças às performances dos lutadores pioneiros oriundos do Jiu-Jitsu como Royce Gracie, Rickson Gracie, Renzo Gracie, Mário Sperry, Murilo Bustamante, entre muitos outros, e de atletas emergentes como a futura estrela Vítor Belfort.

Na altura o grotesco vale-tudo, tal como agora o mais regrado MMA, servia de rampa de lançamento e promoção do próprio Jiu-Jitsu. A arte suave conquistava cada vez mais admiradores com os sucessos de lutadores que, usando técnicas de Jiu-Jitsu, finalizavam adversários gigantescos – ficou para a história a finalização de Royce Gracie contra o lutador de Sumo Akebono, que pesava mais 140 quilos que o brasileiro.

Com o passar dos anos fui observando o aparecimento de cada vez mais academias de Jiu-Jitsu, ao mesmo ritmo da crescente imigração de brasileiros para Portugal, que trazia consigo praticantes e professores de Jiu-Jitsu de todas as cidades do país irmão. Simultaneamente, constatava que cada vez mais amigos e conhecidos decidiam começar a praticar.

Em 2004 Portugal foi bafejado pelos deuses do Jiu-Jitsu. Os organismos associativos de Portugal e Brasil, em parceria com IFBBJ (International Brazilian Jiu-Jitsu Federation), organizaram o primeiro campeonato europeu de Jiu-Jitsu. A partir deste momento, Portugal passou a ser o epicentro mundial da modalidade durante o mês de janeiro, todos os anos até à atualidade.

Desde a sua formação que o campeonato europeu trouxe a Portugal as grandes estrelas mundiais da modalidade. Na ilustre lista de vencedores da categoria faixa preta absoluto encontram-se os ícones Roger Gracie, Braulio Estima, André Galvão e Leandro Lo.

O contacto próximo com a alta competição, trazida pelo campeonato europeu, mudou o paradigma em Portugal. As academias começaram a focar-se também em formar campeões.

O mais recente campeonato europeu, que terminou a 26 de janeiro, voltou a ser um enorme sucesso. De entre os 4937 atletas de todo mundo que competiram, vieram a Lisboa estrelas como Keenan Cornelius ou Mikey Musumeci e destacaram-se três portugueses: Nelton Pontes, campeão europeu no escalão “adultos” em 2018, voltou a reinar no torneio desta vez em “master 1”; e Pedro “Paquito” Ramalho e Bruno Lima, pertencentes à nova geração, sagraram-se vice-campeões europeus na divisão de elite “adulto” faixa preta, nas respetivas categorias de peso.

Em 2020, o Jiu-Jitsu parece já ter atingido a maioridade no nosso país. As medalhas recentemente conquistadas confirmam a crescente qualidade dos praticantes nacionais e a popularidade da arte suave massificou-se – técnicas como o mata-leão ou a kimura fazem parte do léxico de cada vez mais portugueses que já contactaram ou abraçaram o mundo do Jiu-Jitsu.

David Pimenta é Gestor e Politólogo e autor do blogue 'Fight Corner'

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