"Eu vou pagar, se é para todos é para todos". A frase é de Diogo Azevedo, atleta veterano da Casa do Benfica do Seixal, em conversa com o SAPO Desporto e é uma das visões sobre a muito falada e polémica medida anunciada pela Federação Portuguesa de Atletismo: a licença do corredor.

A Federação Portuguesa de Atletismo (FPA) anunciou que, a partir da época 2025/26, todos os participantes em provas de atletismo (com valor superior aos cinco euros de inscrição), que não sejam federados precisarão de uma licença para correr. É uma medida que apanhou muitos de surpresa, tanto praticantes como organizadores das provas e clubes, que ainda não percebem na sua plenitude como será o enquadramento do projeto. A medida foi aprovada, no dia 22 de março, em Angra do Heroísmo em assembleia geral do organismo e tem gerado muito debate.

Federação espera mais atletas federados

A Federação escuda-se na necessidade de legalizar todas as provas de atletismo. "O objetivo da licença é o enquadramento legal dos atletas que participam no calendário das provas do calendário nacional", esclarece fonte da Federação Portuguesa de Atletismo em declarações ao SAPO Desporto.

A FPA defende que a medida visa melhorar a segurança e profissionalizar o setor. Argumenta ainda que outros países europeus possuem sistemas semelhantes e que esta regulação poderá trazer mais transparência e qualidade aos eventos desportivos.

Maratona
Maratona Maratona créditos: @JEAN-PHILIPPE KSIAZEK / AFP

Quer seja por um dia (custo de três euros) ou um ano (36 euros) os atletas estão obrigados, a partir da próxima época, a contratar uma licença para participar nas provas. A FPA considera que estes custos não irão afastar os atletas ocasionais da prática desportiva, muito pelo contrário, até porque uma das intenções do organismo passa pelo aumento de atletas federados.

"Se em vez de fazer a licença do corredor e optar por ser federado, paga 31 euros e tem acesso a todas as provas devidamente homologadas e certificada pela federação, seja em 'trail' ou em pista. Algumas provas de organização particular exigem uma taxa de inscrição. Aí terá de se pagar. As que não têm taxa de inscrição, os atletas poderão sempre participar, não havendo mínimos", refere-se.

O facto de a licença do corredor também contemplar um seguro desportivo, e não só de acidentes pessoais, também é um dos principais atrativos, de acordo com a Federação. "É um vantagem caso haja uma lesão muscular, uma rotura".

O comunicado divulgado pela Federação, também fala de "acesso gratuito aos mais de 100 centros do Programa Nacional de Marcha e Corrida" que contempla o "acompanhamento por parte de técnicos especializados e de corrida".

A licença da corredor para participar em provas de atletismo terá um custo de 3 euros ou quatro euros por prova (se o atleta ou organização tiver ou não seguro) ou 4 euros (se a FPA tiver que garantir o seguro), ou 35 euros anuais.

Em relação ao destino das verbas que serão obtidas através da licença, a FPA remeteu-nos para o ponto 4 do comunicado emitido em reação "às muitas notícias que surgiram na comunicação social" sobre o projeto "filiação por um dia".

"O valor auferido pela Federação Portuguesa de Atletismo no âmbito deste processo será investido no desenvolvimento nacional e regional da modalidade, em articulação com as Associações Regionais e Distritais de Atletismo, com especial foco na formação através do Atletismo Infantojuvenil", refere-se.

Três euros por corrida ou 36 por ano? Não é uma verba "por aí além"

Fundamentalmente, a licença do corredor terá impacto em "provas federadas", sublinha Bárbara Abreu, do clube Run Tejo. "Tudo o que são provas populares participamos, mas para dar alguma competição aos atletas. Uma vez que os nossos atletas são federados o comunicado da Federação Portuguesa de Atletismo não se aplica", comentou, em conversa com o SAPO Desporto.

À semelhança de outros clubes de atletismo, a Run Tejo considera, nesta altura, um "pouco prematuro" tomar posição sobre esta esta matéria, até porque a medida só irá entrar em vigor em 2026 e será "necessário perceber estes desenvolvimentos".

No que diz respeito aos valores que terão que ser pagos e, emitindo desta feita uma posição como atleta amadora, Bárbara Abreu não considera a verba "por aí além" e entre os 36 euros da anuidade (da licença de corredor) e a filiação na Federação optaria pela última.

"Na perspetiva do amador preferia pagar os 31 euros e isso seria positivo. Pagamos 31 euros à federação, e isso dá-nos direito ao seguro e à inscrição nas provas da federação portuguesa de atletismo. Quando vamos a provas nacionais, a verba não é para a federação, mas é para a plataforma de inscrições: são cerca de 3,5 euros por atleta", elucida.

Corrida de São Silvestre da Amadora
Corrida de São Silvestre da Amadora Participantes da prova masculina na partida para a corrida de São Silvestre da Amadora créditos: JOSE SENA GOULAO/LUSA

Bárbara Abreu prefere apontar os elevados custos de inscrição em algumas das mais conhecidas provas populares organizadas no nosso país, tais como a meia-maratona ou maratona de Lisboa ou de Aveiro.

"Essas provas são excessivamente caras, na minha opinião. Eu comecei a correr, ganhei o bichinho, e depois federei-me por um clube e depois por outro. Cheguei a um ponto em que as provas eram tão caras que desisti, independentemente desta taxa ou não. Passaram para um nível mais de uma prova de turismo do que uma prova de atletismo”, critica.

Em relação à medida, considera que tem aspetos positivos e que não terá grande impacto no número de praticantes. No entanto, "esta teria que ser comunicada de outra forma".

"Não houve qualquer conversa com a Federação Portuguesa de Atletismo e os clubes foram apanhados de surpresa", revela.

Também técnico de atletismo a nível amador, Diogo Azevedo fez eco do sentimento de muitos atletas em relação às novas medidas que serão implementadas pelo organismo que tutela o atletismo nacional.

"Licença? Há muitas pessoas que não estão para aí viradas. Uns falam comigo e dizem-me. 'Agora vou ter pagar para fazer as minhas corridinhas? '.

Apesar de reconhecer que a licença do corredor poderá afastar alguns atletas das provas, Diogo Azevedo, que corre nas categorias sub-45, admite que 'correr só por correr' sem essa componente da competição "não seria a mesma coisa". "Faz-se uma prova, recupera-se e depois quer-se melhorar os tempos na próxima prova. É um vício", reconhece.