Filho da antiga glória do Benfica Jean-Jacques, Jaques Conceição já construiu um nome para si próprio no basquetebol português depois de passagens pelo Algés, Galitos Barreiro e Benfica.

Com a época interrompida e o campeonato cancelado, o jogador da Ovarense viu-se obrigado a regressar a casa numa altura em que o futuro permanece incerto e quando ainda não há certezas sobre a continuidade da equipa no escalão maior do basquetebol em Portugal.

As dificuldades sentidas como consequência da crise pandémica que chegou a isolar o concelho de Ovar durante um mês, deixou grandes marcas no tecido empresarial do Concelho e nos apoios ao clube. Com cortes e atrasos no pagamentos dos salários, os jogadores foram autorizados a tratar do seu futuro.

Sem treinos, o atleta tem aproveitado o tempo livre para manter a forma em casa, com corridas e alguns exercícios em casa. Como homem de fé, tem procurado em Deus encontrar respostas para lidar com estes tempos de incerteza.

Foi no futebol que deu os primeiros passos, mas o 'bichinho' do basquetebol acabou por falar mais alto e Jaques Conceição acabou seguiu mesmo as pisadas do pai, embora o peso do apelido tenha sido por vezes difícil de carregar.

Como melhor momento da carreira até ao momento, o extremo-base elege a participação no Mundial de Basquetebol ao serviço da seleção angolana em 2019.

SAPO Desporto: O que é que lhe foram contando os seus colegas que ficaram em Ovar, quando a cidade foi isolada durante um mês?

Jaques Conceição: O que eles me contaram é que não podiam sair, a não ser para ir ao supermercado ou à farmácia.

SAPO Desporto: Como é que os jogadores estão a lidar com esta crise financeira nos clubes causada pela COVID-19? Estão a receber o ordenado na Ovarense?

Jaques Conceição: Houve cortes, mas há ainda muita incerteza. Não se sabe quando é que o campeonato vai recomeçar. Tinha contrato de um ano, o clube está a passar por dificuldades e não sabe se vai continuar na primeira divisão. Não foram pagos na totalidade, foi o clube que o comunicou. Alguma coisa vamos receber, mas ainda não sabemos quando.

SAPO Desporto: Esta incerteza condiciona-vos com a ausência de competição e sem saberem onde vão jogar para o ano?

Jaques Conceição: Gostaria que as coisas já estivessem definidas para a próxima época, mas neste momento está tudo em aberto. É claro que existe preocupação. É o nosso trabalho, é a nossa fonte de rendimento e também é algo que nós gostamos de fazer e temos saudades.

SAPO Desporto: Como é que tem tentado manter a forma física?

Jaques Conceição: Todos os dias tento correr, faça chuva ou faça sol. Tenho aproveitado para ir à praia fazer alguns exercícios na areia.

SAPO Desporto: Esta paragem acaba por mexer com o psicológico dos atletas?

Jaques Conceição: Há atletas que não tendo um rumo, vão ter que encontrar um trabalho. Há vários que não têm contrato de trabalho na Primeira Divisão. No meu caso, sinto-me um pouco triste. Se jogo de basquetebol é porque eu gosto, tenho prazer no que faço. Quando não fazemos algo que gostamos há sempre um sentimento de tristeza mas estou tranquilo.

SAPO Desporto: Considera que terminar a Liga foi a decisão certa?

Jaques Conceição: Acho que foi a decisão acertada. Foi tomada no momento certo. Foi a melhor solução para proteger os atletas e os clubes.

SAPO Desporto. É filho de Jean-Jacques, antiga glória do basquetebol do Benfica. Acabou por ser natural seguir o percurso do seu pai?

Jaques Conceição: No início estava mais virado para o futebol. Jogava basquetebol, ia aos treinos e aos jogos. Mas houve uma altura em estava indeciso. Portugal é um país em que se vive muito o futebol. Em todo o lado há um campo de futebol e nas escolas também se joga mais futebol. Entretanto falou mais alto o basquetebol. Mas não foi o meu pai que disse, tens que ir para o basquetebol porque eu joguei. Disse-me sempre: 'Tu é que escolhes'.

SAPO Desporto: Sente pressão nos ombros por ser filho de quem é e por ter esse apelido?

Jaques Conceição: Já senti. Quando era novinho, eram comentários atrás de comentários que me deixavam constrangido. Diziam-me coisas do género: 'Porque é que não és tão alto como o teu pai'. São comentários que por vezes não temos resposta. Houve uma altura em que senti bastante pressão, mas hoje em dia já não me faz confusão. Já sei quem sou e tenho as minhas características.

SAPO Desporto: E a experiência de ter participado no Mundial de basquetebol ao serviço de Angola. Foi algo inesquecível estar lado a lado com os melhores do Mundo?

Jaques Conceição: Para mim é uma experiência que muitos não vão ter e nem muitos jogadores tiveram. Graças a Deus que tive a oportunidade de participar num Mundial. Houve muito esforço, muita dedicação, muito trabalho também. É um momento para não esquecer. No meu ponto de vista, em termos de basquetebol é um dos melhores palcos. É onde estão as melhores seleções do mundo e só os melhores vão. E ainda bem que Angola teve a oportunidade de participar. É uma experiência para nunca esquecer.

SAPO Desporto: Na transição do Benfica para a Ovarense sentiu um grande diferença?

Jaques Conceição: O Benfica tem outras condições, mas em termos de ambiente vê-se que na Ovarense a população vive o basquetebol de outra forma. Em todos os jogos em Ovar, tínhamos sempre boas casas, com o público a apoiar-nos. No caso do Benfica, talvez por ser um clube mais ligado ao futebol, o basquetebol não tem a atenção que tinha no passado.

SAPO Desporto: E agora? Já sabe se fica na Ovarense ou onde vai jogar para o ano?

Jaques Conceição:  Só Deus é que sabe o que vai acontecer. Neste momento não tenho nada acertado. Não se sabe quando é que a época vai começar, aqui ou fora do país. Não descarto uma aventura no estrangeiro, mas veremos.

SAPO Desporto: Como é que têm sido os seus dias?

Jaques Conceição:  Acordo, tomo o pequeno almoço, neste momento estou com a minha família na zona de Lisboa. Depois vejo uma série ou leio a Bíblia. Depois do almoço também brinco com a minha sobrinha de quatro anos e mais tarde vou correr. Depois para além disso sou cristão e estou em dois grupos de oração com o meu pai que é pastor.

SAPO Desporto: E que exercícios faz?

Jaques Conceição: Em casa tento fazer vários exercícios e estou a tentar melhorar algumas debilidades físicas que tinha e que não tinha tempo para trabalhar já que estava sempre a saltar entre o clube e a seleção. Isso através de exercícios com peso do corpo, com elástico de resistência, estou a trabalhar mais com isso.

SAPO Desporto:  E nos tempos livres como ocupa o tempo?

Jaques Conceição: Vejo algumas séries e como tenho mais tempo tento falar com alguns amigos e também aproveito para fazer meditação. Tenho mais tempo para fazer algumas auto-análises.

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