Poucos lugares no planeta, à exceção dos cemitérios, por motivos óbvios, podem evocar tantas memórias como um lugar cultuado como templo do futebol brasileiro, com direito a um homónimo em Belgrado, capital da Sérvia, o Marakana, alcunha dada ao estádio do Estrela Vermelha. Estou a referir-me ao Estádio Jornalista Mário Filho, mundialmente conhecido como Maracanã, nome do bairro onde está situado, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro.

Palco de duas finais de Mundiais, a de 1950, na qual uruguaios calaram 200 mil incrédulos brasileiros, e mais recentemente em 2014, quando os alemães derrotaram Messi e a Argentina no prolongamento. Palco também de inúmeros clássicos do futebol carioca, das diabruras de Garrincha pelo Botafogo, das fintas de Rivellino no Fluminense, dos potentes remates de Roberto ‘Dinamite’ com o Vasco da Gama, e, principalmente, de Zico, um dos mais prodigiosos camisas 10 que o futebol jamais viu, maior marcador de sempre do estádio, com 333 golos em 435 jogos no palco dos palcos.

Os feitos de Zico e dos craques daquele Flamengo de 1981, campeão da Taça Libertadores e da Taça Intercontinental, seguem sendo entoados nas bancadas quase quatro décadas depois por gerações de adeptos, muitos dos quais nunca os viram jogar. Ouso a dizer que em nenhum estádio do mundo o passado é tão presente como no Maracanã, mesmo o estádio tendo sido modernizado para o Mundial’2014 e a perder boa parte de sua megalómana estrutura, onde facilmente 100 mil adeptos espremeram-se por décadas.

Neste ambiente nostálgico e eufórico, o Flamengo recebeu o Internacional de Porto Alegre, pela primeira mão dos quartos de final da Taça Libertadores, presenciado por 66 mil testemunhas. Com apenas um título continental em sua prateleira, o Flamengo e sua nação de adeptos sabe que a pressão para uma nova conquista é enorme, ainda mais com os sonantes nomes contratados para a época, e com um renomado Jorge Jesus a assumir a equipa a meio do ano. Nada menos que o título é esperado, e frente aos gaúchos do Internacional, bicampeão da América (2006 e 2010), força quase máxima à disposição de JJ. A primeira parte foi intensamente disputada e incrivelmente pobre, salvando-se uma ocasião para o Flamengo, com Gabriel a rematar para uma boa defesa do guarda-redes Lomba.

As expectativas renovaram-se por mais futebol na segunda parte. Estrategista nato, Jesus lançou o polivalente médio Gerson, recém contratado à Roma, para a etapa final. E precisamente dos pés de Gerson saiu o passe para o extremo Bruno Henrique explodir em festa o ambiente. Quatro minutos depois, foi Gabriel a servir Bruno Henrique para o segundo golo rubro-negro, e Maracanã em estado de êxtase. O Internacional pouco criou e jogou, e na rara chance de perigo, o avançado uruguaio Nico López fizera quase tudo certo, a exceção do remate, que saiu ao lado da baliza rubro-negra. Ao fim da noite carioca, Flamengo 2-0, grande vantagem para a segunda mão, na próxima quarta-feira, em Porto Alegre, e quem sabe, depois de 35 anos, chegar às meias de final da Libertadores. O espírito daquela mítica equipa de 1981 parece estar a rondar o Flamengo de 2019, e o Maracanã agradece.

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