O ex-árbitro de futebol Pedro Henriques alerta para a necessidade de Portugal adotar uma “política diferente” no combate à violência no futebol, exigindo penas “exemplares” contra os infratores e a sua exposição pública como meios dissuasores.

Em entrevista à Lusa, o antigo juiz da associação de Lisboa revela ter convivido sempre com violência verbal ao longo de uma carreira de 20 anos, que atravessou campeonatos distritais, nacionais e futebol profissional, cruzando-se, “esporadicamente”, com episódios de violência física, mas defende que essa realidade “tem vindo a agravar-se” nos últimos anos.

“A violência física, sobretudo em Portugal, tem penalizações muito leves e pouco exemplares. A partir do momento em que Portugal adotar uma política diferente – não precisa de apanhar todos, hoje os jogos são televisionados e é fácil apanhar 10 ou 15 indivíduos por jogo que utilizam qualquer tipo de violência. É agarrar nessa rapaziada e fazer aquilo que os ingleses fizeram para acabar com o ‘hooliganismo’: essas pessoas não vão ao estádio”, frisa.

Considerando o aumento da tensão e da violência no futebol nas últimas épocas como “um sinal dos tempos” e o reflexo dos comportamentos da sociedade, Pedro Henriques defende que uma alteração do paradigma poderia surgir com a divulgação pública dos infratores.

“Soubemos que havia 112 adeptos afastados [dos estádios] porque aconteceu isto do Marega. Esse é o problema. É através da liga e das federações que isto tem de se saber, estas entidades têm o poder para falar com as televisões e conseguir publicidade para essas situações. Se esses 112 adeptos, sistematicamente, estivessem com as caras nas televisões a dizer que foram afastados, os outros com os mesmos comportamentos iriam deixar de os ter”, observou.

O antigo árbitro, agora com 54 anos e na ‘pele’ de comentador de arbitragem, critica também a normalização da violência verbal nos recintos desportivos, que abrange não só os árbitros como os jogadores, desde os profissionais aos escalões de formação. Contudo, entende que a penalização dos clubes pelas infrações dos adeptos não é a solução imediata.

“Nesta fase, penalizar um clube especificamente porque, por exemplo, foram lançadas tochas não é o passo. O passo devia ser a responsabilidade criminal do indivíduo e, numa segunda fase, passar para a penalização do clube pelo comportamento dos seus adeptos. Mas, para isso, é preciso eliminar dos estádios pessoas que não são adeptos de ninguém, são criminosos”, afirma o ex-árbitro, garantindo ser favorável à existência das claques.

Para Pedro Henriques, há ainda uma correlação entre uma repressão veemente da violência nos estádios e a evolução da própria I Liga para patamares competitivos mais elevados. Sem colocar de lado a importância do fator económico, o antigo juiz recorre ao exemplo da habitual ‘elite’ europeia nas fases mais adiantadas da Liga dos Campeões, dominadas pelos clubes ingleses, espanhóis, italianos, alemães ou franceses.

“Quanto mais organizado for um campeonato, quanto mais a cultura desportiva for incutida, quanto mais for penalizado o indivíduo violento – e afastado dos estádios -, toda a estrutura do futebol desse país vai evoluir, como evoluíram estes campeonatos do ‘big five’. É claro que o dinheiro é importante, mas este também vem porque os patrocinadores estarão sempre muito mais próximos de um desporto limpo e com boa imagem do que o contrário”, conclui.

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