Para muitos o futebol é o dos milhões. Os dos Ronaldos e dos Messis, dos carros de luxo e das grandes casas, dos prémios da Champions e dos ordenados chorudos pagos nos melhores clubes da Europa. Um hipotético 'El Dorado' em Portugal que só chega aos três grandes do futebol português. Mas a realidade é bem diferente. Grande parte dos jogadores não consegue poupar o suficiente para ter uma vida confortável após o término da carreira. Muitos nem sequer auferem o ordenado mínimo em competições como o Campeonato de Portugal, a terceira divisão nacional. O sonho de ser jogador de futebol deixa atrás de si um percurso de incerteza, e em que o vencimento já escasso não é pago a tempo e horas.

Movimento "Do Futebol para A Vida" foi criado no dia 14 de abril

Com o eclodir da pandemia no ano passado e com o desporto rei provisoriamente cancelado, vários jogadores e pessoas ligadas ao futebol depararam-se com sérias dificuldades. Foi então que os capitães do Real Sport Clube e Loures, Ibraim Cassamá e Hugo Machado se reuniram e numa conversa perceberam que os colegas estavam a passar por grandes dificuldades. Os campeonatos pararam, e muitos jogadores deixaram de receber os já escassos ordenados, que em alguns casos chegavam apenas aos 200, 300 ou 400 euros. Foi aí que nasceu o movimento associativo "Do Futebol para a Vida."

"Do Futebol para a Vida". O movimento que 'matou' a fome a mais de 400 jogadores: "A única coisa que nos separa são aqueles 90 minutos em que somos adversários" créditos: @Do Futebol para a Vida

"Foi em conversa com o [Hugo] Machado. Ele é padrinho do meu filho e chegámos à conclusão que tínhamos que fazer alguma coisa e nasceu "Do Futebol para a Vida". Nunca pensámos que as coisas viessem a crescer como cresceram, mas felizmente as pessoas reviram-se no que estávamos a fazer", começa por contar Ibrahim Cassamá. "Foi muito simples. Entre os jogadores facilmente sabes o que se passa no balneário x ou y. Somos todos colegas. A única coisa que nos separa são aqueles 90 minutos em que somos adversários", acrescenta

Ibrahim Cassamá "Somos todos colegas. A única coisa que nos separa são aqueles 90 minutos em que somos adversários"

Rapidamente a onda de solidariedade cresceu nas redes sociais e chegaram as contribuições. Mais difícil foi fazer com que os jogadores perdessem a vergonha e pedissem ajuda. "Começamos por criar o site, Instagram e Facebook. Colocamos os pedidos de ajuda no nosso grupo de Whatsapp e as pessoas começaram a ajudar. Recebemos imensos pedidos, mas sentimos os nossos colegas com vergonha mas nós sempre dissemos que não tinham que ter vergonha que nós não íamos dizer a ninguém: 'isso fica entre nós', dissemos-lhe. Passamos a mensagem e a vergonha acabou por passar", conta-nos Paulinho, também jogador do Real Sport Clube e um dos impulsionadores do projeto.

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"Acabámos por chegar ao Bruno Fernandes, Wilson Eduardo, Rui Fonte, que têm sido incansáveis connosco. Eles chegaram até nós e perguntaram de que forma poderiam ajudar. E nós dissemos que precisávamos de comida e eles prontamente nos ajudaram. O Sérgio Conceição, Bruno Lage, o Fernando Madureira (Super Dragões). Tanta gente conhecida que nos foi ajudando e nós estamos eternamente agradecidos por que assim conseguimos ajudar os nossos colegas de profissão", prossegue.

Paulinho, jogador do Real Sport Clube
Paulinho, jogador do Real Sport Clube créditos: @Real Sport Clube

O futebol é o reflexo da sociedade. Há ricos, pobres e remediados e do desporto onde a bola rola dependem muitas famílias que precisaram de ajuda quando o ordenado, já muitas vezes escasso, deixa de cair no final do mês. "No V. Setúbal pagamos ordenado a todos os funcionários, no Aves também conseguimos pagar. Pagamos também viagens das ilhas a alguns treinadores que de outra forma não conseguiam regressar. Pagou-se contas de eletricidade, rendas de casa, a jogadores e a funcionários", relembra.

Ibrahim Cassamá prefere enaltecer o papel dos agentes do futebol. "O jogador e o treinador de futebol têm uma responsabilidade social muito grande" e sabem que a "situação pode mudar de uma hora para a outra."

Sandro Giovetti, o homem do terreno

Com o regresso das competições, é Sandro Giovetti, ex-diretor desportivo do Fátima - perdeu o trabalho por conta da pandemia - que tem estado mais ativo na associação, tratando de toda a parte logística que passa pela entrega das ajudas aos mais carenciados.

Neste momento, a associação 'Do Futebol para a Vida' dispõe de polos em Lisboa, no Porto e no Algarve. No norte, Fernando Madureira e Paulo Lopes é que fazem a coordenação dos alimentos. Na zona da capital, a sede é no Real Sport Clube e no Algarve é Hélio Pinto quem coordena a operação.

Sandro Giovetti, um dos rostos do 'Do Futebol para a Vida' numa recolha de alimentos
Sandro Giovetti, um dos rostos do 'Do Futebol para a Vida' numa recolha de alimentos créditos: DR

Figura conhecida no mundo no futebol não esquece o telefonema que recebeu do treinador Bruno Lage que se prontificou a doar a receita do seu livro em favor da causa. "Foi muito gratificante porque já conhecia o Mister há algum tempo. Ele ligou-me a dizer: 'Sandro, eu tenho acompanhado o vosso projeto, mas agora chegou a hora de vos ajudar e vou-vos dar a receita do meu livro'. Ficamos muito gratos e no fim deu para ajudar 50/60 famílias na altura do Natal."

Em palavras simples, Sandro explica de que forma se responde aos pedidos de ajuda, para que não hajam dúvidas: "Nós temos tudo transparente. Quando é para pagar uma conta nós metemos no grupo do Whatsapp e as pessoas pagam. Não há nada a esconder. É um grupo muito sério de que me orgulho de fazer parte."

As promessas infundadas e os sonhos desfeitos

Em Portugal o futebol pode ser de primeira ou de segunda, até na questão salarial. Se nos principais clubes os jogadores recebem salários 'quase' principescos, nas divisões inferiores não é essa de todo a realidade. Há jogadores no Campeonato de Portugal a receberem "100, 200, ou 300" e quase a serem obrigados a serem profissionais”, esclarece Paulinho. A pandemia acabou por servir de desculpa para os problemas organizacionais nos clubes, já que a ausência de público nas bancadas tem pouco ou nenhum impacto na terceira divisão do futebol português.

Já com vasta experiência no dirigismo, Sandro Goretti aponta o dedo aos investidores e às suas “promessas infundadas''. "Eles chegam e pensam que isto é o país das maravilhas e que podem fazer tudo e quem acaba por pagar é o jogador. O ex-diretor desportivo defende mesmo "uma limpeza no futebol português". "Nesses campeonatos não-profissionais nenhum clube devia ter uma SAD", atira.

Paulinho espera que a Terceira Liga, competição que vai arrancar em 2021/22 venha garantir um ordenado mínimo aos jogadores, no entanto faz um apelo para que o Campeonato de Portugal não seja esquecido: "Vai ser a quarta divisão e vão haver equipas que não vão cumprir e os jogadores naturalmente vão passar por dificuldades."

O futebol para a vida já ajudou mais de 400 jogadores e mais de 160 famílias.

Sem querer arranjar 'bodes-expiatórios', Ibrahim Cassamá, um dos fundadores do projeto, prefere sublinhar que todos os agentes do futebol, sejam jogadores, dirigentes, podem fazer mais e melhor para que determinadas situações deixem de existir no nosso futebol. "Não apontamos o dedo a ninguém. Não queremos saber se foi o clube A, B ou C que deixou aquele jogador naquela condição. O nosso objetivo é poder ajudá-los e fazer com que a semana deles seja a melhor possível", atira.

A miséria que também há no futebol

No futebol também há muita miséria e vários jogadores passaram e continuam a passar por situações realmente dramáticas. Vivem muitas vezes em casas sem condições em que falta quase tudo, coisas básicas que para a maioria de nós é um dado adquirido tal como papel higiénico, pão e manteiga.

"Muitas vezes entrei em casa de colegas meus e só me apetecia chorar”, conta-nos Paulinho com a voz embargada. "Sinto-me um privilegiado por não passar por uma situação semelhante. É muito triste ter filhos e ver que eles não têm nada para comer", continua.

 "Muitas vezes entrei em casa de colegas meus e só me apetecia chorar"

"Estamos a falar de jovens que vêm do estrangeiro atrás dos sonhos e chegam a um ponto em que não têm nem cinco euros para carregar o telefone e para falar com a família. Apanhei miúdos a pedirem um simples penso higiénico para a namorada, pedirem papel higiénico, manteiga e pão. No Fátima vi miúdos que eram eles que sustentavam a família e nem um pacote de leite que custa 60 cêntimos têm", recorda Sandro Goretti, o mais ativo neste momento no projeto e que continua a acompanhar essa realidade de perto. Sem emprego há um ano, não foi por isso que deixou de ajudar quem mais precisa.

"Fomos visitar uma casa no Algarve e moravam lá 16 jogadores sem condições nenhumas."

"Fomos à margem sul e estavam cinco jogadores a morar na mesma casa, uma casa sem condições nenhumas. Um jogador morava numa espécie de dispensa, só tinha espaço para colocar um colchão e mesmo assim mal. Em outra casa no Algarve moravam lá 16 jogadores", testemunha Paulinho.

"Eu cheguei a ter cinco jogadores em casa, numa casa de família e eles ficaram lá dois meses. Mas nós fazemos de coração porque nós não ganhamos nada com isto. Eu faço isso diariamente. Ainda ontem à noite fui pagar uma renda e levar comida a um miúdo que foi da formação do Sporting e que não tinha nada para comer", relata-nos o gestor desportivo. O próximo sonho passa agora pela construção de uma casa no Pinhal Novo que possa acolher provisoriamente os jogadores que passam por dificuldades. "Pensamos em criar algo temporário enquanto os jogadores não resolvem a vida deles. Nós temos um grupo de jogadores que sabe que connosco pode fazer uma chamada e na hora nós resolvemos. Agora com a ajuda de patrocinadores pensamos que a casa possa estar pronta em três ou quatro meses", revela.

Ibrahim Cassamá, jogador do Real Sport Clube e um dos fundadores do movimento
Ibrahim Cassamá, jogador do Real Sport Clube e um dos fundadores do movimento "Do Futebol para a Vida" créditos: DR

Os apoios também se traduzem em outras vertentes, através de ajuda psicológica e trabalho para os atletas que ficaram sem poder exercer a sua atividade. "Já fizemos algumas parcerias com várias empresas e temos ainda um mental coach que trabalha com os jogadores semanalmente". Agora um dos objetivos passa pela internacionalização: "Fizemos o mesmo em Angola, sou eu que estou a coordenar.  Sabemos que é um país de extremos. Os jogadores ligaram-me e eu expliquei-lhes como é que estamos a fazer aqui. Perguntam-me de que forma podem angariar fundos, e como é que se fazem os kits para se entregarem às famílias. Temos conseguido, agora estamos a pensar no Brasil também", explica Sandro Giovetti.

Com a temporada 20/21 a ter arrancado com relativa normalidade os pedidos de ajuda diminuíram, mas não cessaram. Há sempre alguém que está em dificuldades, já que o (escasso) rendimento dos futebolistas abaixo da segunda liga não permite cobrir todas as despesas.

"Sim, os clubes começaram a trabalhar e começaram a ter dinheiro e têm tentado ser cumpridores. Às vezes atrasam um pouco no pagamento e nós temos que ir ajudar e alguns têm vergonha... Como eles recebem, pensam que vamos pensar mal deles. Ainda ajudamos sim, mas nada a ver em relação ao início da pandemia. Agora ajudamos mais as famílias dos jogadores que há muitos que perderam emprego", esclarece o dirigente.

Sem qualquer contacto por parte da Federação Portuguesa de Futebol até ao momento e com contactos preliminares com o Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol (SJPF), o objetivo é que o movimento crie raízes e continue a ajudar quem mais precisa.

“Se fosse para acabar já tinha acabado e era muito fácil. Uma pessoa pode pensar: ‘eu não recebo e ando aqui de um lado para o outro’. Mas a educação que me deram foi a de que temos que ajudar o próximo. Não vamos desistir e vamos fazer tudo para continuar a ajudar de uma maneira séria, honesta e transparente. Estamos cá para durar”, explica Sandro Giovetti. E nem o regresso à atividade profissional fará com que vire as costas ao projeto.

“Espero que muito em breve consiga uma colocação. O meu sonho é continuar a estar ligado ao futebol, já lancei muitos jogadores mas nunca vou deixar o "Do futebol para a vida". É um projeto meu, mas é um projeto social que eu sempre quis fazer desde a infância. Eu venho de um bairro social e faço-o com orgulho. Terei que me organizar mas nunca vou deixar este projeto."

Para Ibrahim Cassamá, fundador do movimento e também candidato à presidência do SJFP, se o projeto acabar até pode ser sinónimo de boas notícias. "Oxalá o futebol para a vida acabe depressa que é sinal que as coisas estão no bom caminho", termina.

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