Numa altura em que o mundo está parado devido à pandemia de coronavírus, os atletas fazem parte de um dos grupos mais afetados. Longe do 'habitat natural', é preciso reinventar o plano traçado até então para cada época desportiva.

Tal como acontece na grande maioria dos desportos, a vela não é exceção. Longe do mar, Jorge Lima admitiu em entrevista ao SAPO Desporto que o isolamento mudou por completo as suas rotinas.

O velejador de Cascais que, junto com José Costa assegurou uma vaga na competição de 49er em Tóquio2020, com a classificação para a regata das medalhas nos Mundiais de classes olímpicas de vela de 2018, em Aarhus, na Dinamarca, contou-nos como tem sido o dia-a-dia em isolamento.

Como tem vivido este período de isolamento?

Inicialmente foi um choque. Nesta altura já estou há 40 e tal dias em isolamento e já me acostumei às rotinas. Estou a fazer uma preparação a nível físico bastante boa, tenho algum equipamento que me permite treinar bastante bem em casa, mas falta sempre a parte do mar. Não conseguimos ir ao mar e sentimos muito essa falta.

Sabemos que os Jogos Olímpicos foram adiados por isso não há um sentimento de urgência em navegar. Neste momento é relativamente fácil assumir que existe um problema maior, que temos de tê-lo em mente e fazer as nossas vidas em função disso. Sabemos que vamos chegar ao mar e vamos estar um pouco enferrujados, mas temos de aceitar. Neste momento a prioridade é a saúde de todos e estamos perfeitamente mentalizados disso.

Como é treinar em casa?

Fisicamente faço dois treinos diários, um deles logo de manhã. Dependendo do 'feeling' e da sensação do corpo, os treinos são mais puxados ou mais leves. Faço uma alimentação muito boa, no fundo dá para ter mais cuidado com isso, porque há uma série de coisas que normalmente não se consegue fazer, e neste momento, essa parte está a correr muito bem.

Como tem sido o seu dia-a-dia?

Procuro ter um dia-a-dia o mais normal possível, como vestir roupa como se fosse à rua, cuidar da casa. Neste momento estou a aproveitar para fazer coisas dentro de casa que não fazia, como limpezas mais profundas, pendurar aquele quadro que estava por pendurar há muito tempo. Pessoalmente, e porque a minha namorada está à espera de bebé, tenho tido um cuidado extra principalmente nas saídas. Praticamente não saio de casa, até as compras têm sido quase todas feitas online. A bebé está para chegar em julho e eu sei que se apanhar o vírus não posso ver o nascimento, que é algo muito importante para mim, por isso a vida tem sido feita em função disso e das recomendações que têm sido dadas pela Direção Geral de Saúde, que tenho cumprido à regra.

Do que se sente privado nesta altura?

Há muita coisa que gostava de fazer como surf que é um hobby que incluo dentro do meu treino físico, mas neste momento não posso e sei de muita gente que vai. Portanto tento fazer a vida o mais normal possível dentro de casa e tentar manter a mente ativa. O confinamento depois começa a ter um efeito negativo, eu já tive alguns dias em que me sentia aborrecido.

Jorge Lima e José Luís Costa
José Luís Costa (E) e Jorge Lima (D) créditos: ESTEBAN COBO / EPA

Quais as maiores dificuldades do isolamento?

Uma das coisas mais difíceis, e mesmo assim acho que tem corrido bastante bem, é fazer os treinos físicos com a intensidade que é necessária: puxar pelo corpo, levá-lo ao limite, mas num ambiente completamente diferente. Normalmente este tipo de treino é feito em ginásio com o meu preparador físico e com máquinas indicadas, consegue-se fazer variação de treino, o local é específico para aquele tipo de trabalho. E agora em casa é tudo diferente. Eu tenho um espaço na parte de trás da minha casa que me permite estar ao ar livre, portanto não é exatamente dentro de casa, o que me dá algum fôlego. Mas não é fácil. O meu preparador físico está sempre online comigo, mas não é a mesma coisa. As sensações são outras, são diferentes e é impossível negar isso. No ginásio há música de fundo, há outras pessoas a falar e tudo isso faz diferença. Ouço sempre a minha própria respiração, parece que estou sempre mais cansado. Se meto uma música de fundo, o meu preparador físico, João Moisés, não me consegue ouvir ou sou eu que não o ouço a ele. É muita situação muito diferente, mas temos de dar a volta e sinceramente acho que neste momento as coisas estão a correr bastante bem, sinto-me bem fisicamente e acredito que vamos ter muito tempo para voltar ao ativo, entrar na água e atingir o ponto de forma quando for necessário. Temos um ano até aos Jogos Olímpicos por isso acho que vai correr tudo bem.

Continuam a ter apoio por parte do Comité Olímpico?

Sim, as condições mantêm-se todas. Os atletas qualificados mantêm-se como atletas qualificados e os apoios e o financiamento já foram estendidos até à data dos Jogos. Tudo isso foi garantido pelo Comité Olímpico e pelo IPDJ. Nesse aspeto, só o número de dias de trabalho é que foi alterado, tudo o resto ficou igual. As condições mantêm-se e as bolsas continuam a ser pagas.

Como acha que será o regresso à competição?

Na verdade tenho alguma curiosidade em relação a isso. A minha primeira questão passa muito pela parte de quando é que vamos voltar à competição. Se eu soubesse que ia entrar em competição daqui a um mês... Desde que parei e com todo este trabalho que tem sido feito, acredito que não haverá uma grande quebra no contacto com o barco em si e portanto o rendimento não deve baixar muito. Mas se ficarmos sem competir até setembro, e voltar para o mar talvez em julho, ou até agosto, aí sim vai ser muito curioso. Mas, eu acho que no caso da nossa equipa, como eu e o José já temos muita experiência, já temos muitos anos disto, não haverá grande dificuldade no regresso. Considero que em duas a três semanas de treino livre, mesmo que seja inicialmente sem outros barcos, estaremos a um bom nível. Se nos faltar ritmo de competição, com certeza que também vai faltar aos nossas adversários porque não somos só nós que estamos fora de competição, estamos todos. Nesse aspeto, o nível pode não ser exatamente o mesmo que tínhamos quando participámos no Campeonato do Mundo, em janeiro, mas rapidamente chegamos lá. Quando se faz um trabalho profissional de alto nível, mais semana menos semanas, conseguimos voltar a um bom nível.

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