Se tudo corresse como planeado, esta sexta-feira, dia 3 de julho, corria-se a sétima etapa do Tour de France número 107 entre Millau e Lavaur, no sul de França. Mas a pandemia de COVID-19 apareceu, afetando todo o desporto mundial e  nem a ‘Grande Boucle’ escapou, tendo sido adiada para o final de agosto.

Apesar de não existirem corredores a percorrerem as estradas gaulesas, o dia 3 de julho fica para sempre marcado na história de Portugal no Tour de France: em 1969, Joaquim Agostinho vencia a sua primeira etapa e tornava-se no primeiro português a vencer na prova francesa.

No dia em que se celebram 51 anos desde a vitória de Agostinho em Mulhouse, recordamos todas as vezes em que o ciclismo português se destacou naquela que é considerada a maior prova de ciclismo do mundo.

Depois de Agostinho, seguiram-se Paulo Ferreira, Acácio da Silva, Sérgio Paulinho e Rui Costa na conquista de etapas, com um destes a envergar a amarela e outros dois a subir ao pódio nos Campos Elíseos. Neste período de mais de meio século, Portugal ainda viu um dos seus alcançar o Top 10 por duas vezes, mas os dois 3.º lugares de Joaquim Agostinho continuam a ser recorde por bater.

O SAPO Desporto foi falar com alguns destes corredores portugueses para recordar a dureza, o esforço e a alegria de correr e vencer no Tour de France.

Portugal no Tour

Antes dos vencedores, é importante relembrar o caminho percorrido pelos corredores lusos no Tour. Em 106 edições da Volta a França, Portugal contou com 31 ciclistas a participarem na prova. O primeiro foi Alves Barbosa, que logo na sua estreia alcançou um 10.º lugar.

Desde aí muitos se seguiram: nomes como Marco Chagas, Fernando Mendes ou Orlando Rodrigues são alguns dos presentes na lista dos nacionais que correram em França. Dos 31 corredores, 16 participaram apenas numa edição.

Joaquim Agostinho somou 13 participações, um número recorde até aos dias de hoje. Rui Costa é o segundo com mais participações (nove) e o pódio fica completo com Sérgio Paulinho (sete). Três dos nomes de que vamos falar de seguida.

1969 – 1983: Joaquim Agostinho

A história das vitórias portuguesas no Tour de France começa-se a escrever em 1969, pela ‘caneta’ de Joaquim Agostinho, considerado por muitos como a grande lenda do ciclismo português. O ciclista de Torres Vedras começou no ciclismo profissional em 1968 e um ano depois chegava à ‘La Grande Boucle’ para se tornar no quinto português a participar na prova, que nesse ano cumpria a sua 56.ª edição.

França precisou 56 ‘Tours’ e cinco dias para ver um português conquistar uma etapa do Tour: a 3 de julho de 1969, Joaquim Agostinho inscrevia o seu nome, pela primeira vez, na história da prova francesa, vencendo a quinta etapa, entre Nancy e Mulhouse, com 18 segundos de vantagem sobre o alemão Rudi Altig.

Dias depois, na 14.ª etapa, Agostinho continuava a mostrar a sua capacidade ao mundo velocipédico, chegando a Revel com um minuto e 18 segundos de vantagem sobre o 2.º classificado, num Tour onde além de garantir as primeiras duas vitórias lusas, garantiu a melhor classificação de um português na prova (8.ª) até à altura, um ‘brilharete’ que Agostinho não esperava, como admitiu na altura à RTP.

↖Joaquim Agostinho em entrevista à RTP, 1969

“Não, nunca esperei. Sabia que vinha para o meio das grandes vedetas, nunca poderia fazer grandes brilharetes. Surgiu-nos a oportunidade e eu aproveitei”

Este tinha sido apenas o primeiro de treze(!) Voltas a França que Agostinho somou no seu currículo, nunca ficando abaixo do 15.º lugar, somando ainda dois top 5 (1971 e 1980) e dois terceiros lugares (1978 e 1979), classificação que perdura até aos dias de hoje como a melhor classificação de um corredor português na grande prova.

Entre as quatro vitórias individuais no Tour – além das duas em 1969, somou ainda a vitória no contrarrelógio individual em 1973 – a que mais se destaca aconteceu em 1979, a última etapa conquistada por ‘Tino’.

↖A reta final da 4.ª vitória de Agostinho

A 17.ª etapa, a 15 de julho de 1978, contava com a mítica subida ao Alpe d’Huez, com as suas 21 curvas a concluir um percurso de 167 km. Agostinho chegou ao topo com quase dois minutos de vantagem sobre o segundo classificado, saltando para o quinto lugar da geral num ano em que acabaria por repetir o 3.º lugar, a 26m53s do francês Bernard Hinault, vencedor dessa edição.

Joaquim Agostinho no Alpe d'Huez
Joaquim Agostinho no Alpe d'Huez em 1979

O português ficou para sempre imortalizado na curva 14, onde o Sporting, no âmbito do centenário do clube, lá prestou homenagem ao seu histórico atleta.

Diz, quem dividiu equipa e pelotão com ele, que era tão bom ciclista como pessoa. Acácio da Silva, um dos vencedores lusos com o qual falamos mais à frente, dividiu pelotão com Agostinho em 1983 na Volta à Suíça.

“Começamos na Volta à Suíça e andámos mais ou menos o ano todo juntos. Foi bom conhecê-lo, saber quem era esta pessoa que para mim era um campeão, um ídolo. O que ele fez, há poucos a fazê-lo”, começa por nos explicar Acácio que destaca a natureza da lenda portuguesa.

“É um respeito grande por ele, pela pessoa e pelo ciclismo que nós, portugueses, lhe devemos. Era uma pessoa de uma natureza que hoje existem poucas, mesmo na minha altura. Há poucas pessoas assim”, remata.

Paulo Ferreira, com quem falamos de seguida, fazia parte da equipa Sporting-Raposeira que em 1984 tinha sido convidada para participar no Tour, graças à liderança de Agostinho na equipa.

“Felizmente tive a honra e o prazer de conviver com ele seis meses, mas infelizmente foi pouco tempo”, começa por recordar.

“Eu costumo dizer que ele era tão boa pessoa como atleta. Ele ajudou-me, como eu o ajudei, o prestígio dele era muito superior a todos nós, mas na equipa éramos todos iguais. Era uma excelente pessoa, foi uma perda imensa para o ciclismo, para o desporto, para tudo. Como colega era espetacular, uma pessoa excecional”… Aprendi algumas coisas com ele… Só coisas boas, remata.

Meses antes do Tour de ‘84, a 30 de abril, um cão colocou-se no caminho de Agostinho no final da 5.ª etapa da Volta ao Algarve, provocando-lhe uma queda grave que lhe fraturou o crânio. O lendário ciclista ainda atravessou a linha de meta, com a ajuda de dois colegas. Depois de ser transportado ao hospital de Faro foi evacuado de emergência para o Hospital da CUF. Depois de várias intervenções cirúrgicas e de 10 dias em coma, Joaquim Agostinho acabaria por falecer a 10 de maio de 1984 e o ciclismo nacional perdia o seu grande nome.

1984: Paulo Ferreira

Cinco anos depois da última vitória de Joaquim Agostinho no Tour de France, uma equipa portuguesa regressava à prova máxima do ciclismo internacional – a primeira vez tinha sido em 1975 com a equipa Sporting-Sottomayor. O Sporting-Raposeira chegava por convite, graças ao facto de Joaquim Agostinho ser o chefe de equipa. Infelizmente, o destino pregou uma partida ao carismático líder que faleceu meses antes.

A equipa chegava afetada com a perda do seu líder, mas com a motivação de dignificar a equipa e homenagear a lenda do ciclismo português. Na etapa cinco do Tour de 1984, Paulo Ferreira acabou por fazer isso mesmo.

Com 22 anos acabados de fazer, chegava à sua primeira Volta a França, uma prova que seria sempre complicada, mas que com a morte de Agostinho ficou ainda mais difícil.

“A morte do nosso colega Joaquim Agostinho condicionou tudo, a preparação, o estado anímico, tudo… Todo o planear dessa prova, foi por água abaixo. Perdemos ritmo, mas ganhámos outro ânimo que era tentar dignificar o Sporting, o ciclismo português e logicamente tentar homenagear o Joaquim Agostinho”, contou-nos o ex-ciclista de Vialonga, por telefone.

A quinta etapa corria-se no norte de França, entre Béthune e Cergy-Pontoise, um percurso de 207 km onde Paulo Ferreira começou a atacar cedo, fugindo do pelotão poucos quilómetros após a partida, numa altura em que a vitória na etapa ainda não estava na sua cabeça.

“Nós andávamos ali há cinco dias, não tínhamos ganho praticamente nada, tinha a noção que não éramos falados aqui em Portugal, e eu pensei ‘bom, vou tentar pelo menos’, era uma montanha de 4.ª categoria, não era assim tão difícil, ia tentar superar essa montanha e após isso logo se via”, recordou.

"Eu passei sempre a mensagem que terceiro lugar para um português já era bom. Claro que eles acreditaram no que quiseram"

Quilómetros depois, o vialonguense recebeu a companhia de dois franceses, Barteau e Le Guilloux. Com os dois compatriotas a colaborarem e a planearem a vitória na etapa, o ciclista ‘leonino’ usou o ‘bluff’ para jogar pela etapa.

“Eu passei sempre a mensagem que terceiro lugar para um português já era bom. Claro que eles acreditaram no que quiseram. Eles juntaram-se e combinaram uma tática, que era um deles atacar - uma vez que havia um que era muito mais rápido que o outro - o mais lento atacava, eu ia à roda dele e o outro, indo na minha roda, facilmente me passava. Mas eu não fui nessa”, afirmou.

E não foi mesmo. A poucos metros da linha de meta, o plano ‘francês’ colocou-se em prática. Le Guilloux atacou primeiro, Paulo Ferreira manteve-se na sua e só ao ataque de Barteau é que o português respondeu com um sprint, ultrapassando o ‘atleta da casa’ e tornando-se no segundo português a vencer na ‘la grande boucle’.

↖A vitória de Paulo Ferreira em 1984

“Tudo foi fácil ao chegar à meta, mas até lá chegar nada estava concluído, nem de longe nem de perto. Ali a 20, 30 metros já sabia que ia vencer, mas até lá foi complicado”, recorda.

Recorte de jornal de 1984
créditos: Paulo Ferreira

A emoção era visível após cruzar a meta, uma vitória dedicada a Agostinho, com quem Paulo Ferreira tinha convivido nos últimos meses antes do seu falecimento.

O ciclista ‘leonino’ envergou, de resto, a camisola branca da juventude entre a 6.ª e a 11.ª etapa, uma vez que o líder dessa classificação, Vincent Barteau, já era o camisola amarela.

Paulo Ferreira com a camisola branca, em 1984
Paulo Ferreira com a camisola branca, em 1984 créditos: Paulo Ferreira

1986 – 1992: Acácio da Silva

Chegados a 1987, o Tour volta a ver pernas portuguesas a pedalarem mais rápido que os restantes com Acácio da Silva. O português, natural de Montalegre, mas emigrado no Luxemburgo desde tenra idade, corria a sua primeira Volta a França depois de duas vitórias em etapas no Giro d’Itália. Saiu vencedor da terceira etapa, quando a prova ainda não tinha entrado em França, entre Karlsruhe e Estugarda, no sudeste alemão.

“A primeira vitória foi difícil, porque éramos 20 no grupo e estava um calor enorme, abafado, com um final bastante complicado…”, conta-nos Acácio diretamente do Luxemburgo, “mas era adaptada às minhas características por isso no final de contas foi fácil ganhar. A mais difícil foi aqui no Luxemburgo”.

Mas antes de chegarmos a 1989, à tal vitória em ‘casa’, convém relembrar que este transmontano somou outra vitória em etapas, na quarta tirada do Tour de 1988, entre Le Mans e Évreux, batendo o holandês Rooks e o irlandês Sean Kelly.

Seguimos agora para 1989, para a 76.ª edição da Volta a França que acaba por ser histórica para o ciclismo português. Acácio da Silva, ao serviço da Carrera Jeans-Vagabond, parte para a primeira etapa com início e fim na Cidade do Luxemburgo e desde cedo começa uma fuga com a companhia do dinamarquês Søren Lilholt, que se seguiu com o português até à subida final.

“Ele não correu mais para trabalharmos juntos e para largá-lo teve de ser na última subida, a dois quilómetros da linha de meta”, recorda.

No final, Acácio da Silva termina com oito segundos de vantagem sobre o dinamarquês, mas mais importante, passou a somar mais quatro minutos e 26 segundos que o camisola amarela, o holandês Erik Breukink, passando a liderar a classificação geral. Foi a primeira e até hoje única vez que um português envergou a camisola amarela.

↖A vitória de Acácio da Silva e a entrega da Camisola Amarela no Tour de France de 1989

A vitória no Luxemburgo e a liderança na geral conquistadas no sítio onde cresceu foram “dois coelhos duma cajadada” para Acácio, que aguentou a amarela até à quinta etapa.

“Na altura a Carrera era uma das melhores equipas mundiais, tivemos de controlar aquilo tudo. Mas no quarto dia foi mais complicado, porque tínhamos os paralelos [piso empedrado] lá em cima na Flandres e aí só mesmo para os homens das clássicas, mesmo assim consegui conservá-la aí. A equipa era boa, era para defender a camisola, mas a amarela é um peso que pesa”, realça.

Acácio acabaria por perder a amarela num contrarrelógio individual, na quinta etapa, para o norte-americano Greg LeMond, que acabou por se sagrar vencedor da prova nesse ano, pela segunda vez na sua carreira.

"O Giro é duro mas, no final de contas, o que conta mais é a Volta a França"

A amarela que vestiu continua guardada pelo português, que teve no Giro d’Itália a sua primeira grande volta. Apesar disso, antigo ciclista admite que é a Volta a França que conta mais no seu currículo.

“Comecei na Volta à Itália e sempre gostei muito. Ganhei a etapa rainha em Itália, fiz 7.º na classificação geral, mas como comecei lá era algo esperado. Na Europa era Itália que contava, não era França nem Espanha. Itália estava lotada de competições, equipas, de tudo. Para um estrangeiro ser aceite em Itália tinhas de ser um pouco melhor que os italianos, senão não eras aceite em lado nenhum. O Giro é duro, mas no final de contas, o que conta mais é a Volta a França”, concluiu.

2002 – 2006: José Azevedo

As vitórias em etapas não apareciam, mas para compensar, Portugal voltou a ter um ciclista no Top 10 de uma Volta a França, 23 anos depois do último de dois terceiros lugares alcançados por Joaquim Agostinho (1978 e 1979).

José Azevedo chegava ao seu primeiro Tour em 2002, na equipa espanhola da ONCE-Eroski ao lado de nomes como Joseba Beloki e Álvaro e Igor Galdeano, depois de passagens nas equipas portuguesas da Recer-Boavista (1993-1995) e Maia-CIN (1996-2000).

A primeira vez nunca se esquece, como recordou o antigo ciclista em conversa com o SAPO Desporto, onde relembrou o seu primeiro ‘Tour’.

“Começou no Luxemburgo, com o prólogo. O Tour era aquela corrida que eu sempre ambicionava fazer na minha vida, ouvia-se falar muito no Tour, muitos comentários, mas quando cheguei lá é que me apercebi da grandeza daquela corrida. É uma corrida que tanto a nível desportivo como a nível mediático, está num patamar mais elevado”, recordou.

ONCE-Eroski, de José Azevedo, conquistou a classificação por equipas em 2002
ONCE-Eroski, de José Azevedo, conquistou a classificação por equipas em 2002. (Photo by JOEL SAGET / AFP)

Como gregário da equipa que colocava em Beloki o objetivo da vitória na geral, Azevedo estreou-se com um sexto lugar na sua primeira participação na ‘La Grande Boucle’, subiu ao pódio da prova – pela primeira vez desde Agostinho - graças à vitória na classificação geral por equipas e somou ainda uma vitória na etapa do contrarrelógio por equipas, vitória que viria a repetir em 2004 e 2005, desta vez pela U.S Postal Service.

Foi com a camisola da equipa norte-americana que dois anos depois alcançou a sua melhor classificação na Volta a França e a melhor classificação de um português até hoje, desde Agostinho em 1979: um quinto lugar na geral.

José Azevedo a correr pela US Postal
Jośe Azevedo a correr pela US Postal na etapa 19 do Tour de 2004. (Photo by MARTIN BUREAU / AFP) créditos: 2004 AFP

“O Tour de 2004 foi iniciado com a missão de fazer trabalho em função do líder, que era Lance Armstrong. O nosso objetivo era que ele ganhasse o Tour e eu tinha um papel reservado à última montanha, ficar com ele para os finais das etapas. Consegui fazer esse trabalho sem perder muito tempo e no final acabei por conseguir um lugar na geral. Não era um objetivo inicial, mas depois do contrarrelógio o diretor da equipa disse-me que a partir daí ia passar a ter um papel mais reservado para tentar ficar no Top 10, neste caso o Top 5”, revela.

"A forma como se corre o Tour e o mediatismo traz mais pressão psicológica para os atletas e para as equipas"

O agora diretor desportivo na Nippo-Delko considera que a exigência do Tour obriga a que os corredores sejam fascinados pela prova para conseguir ultrapassar as dificuldades deste ‘Grand Tour’, que entre os três que correu, é o que mais pressão e mediatismo tem, tornando-o diferente do 'Giro' e da ‘La Vuelta’.

A corrida tem um mediatismo a nível mundial, que depois dos campeonatos do mundo de futebol e dos jogos olímpicos, é o maior evento que se realiza. O facto de estar a ser vista em todo o mundo, o número de pessoas que estão nas partidas, nas chegadas, ao longo do percurso, o impacto que tem nos patrocinadores ou pode vir a ter, faz com que todas as equipas tentem aproveitar o Tour para rentabilizar ao máximo e ter os seus melhores resultados”, começa por explicar.

“Toda a gente chega ao Tour a 100 por cento, isso faz com que a velocidade seja elevada. Todos têm os seus objetivos. (…) É toda esta repercussão que cria um aumento do stress dentro do pelotão, é a pressão da corrida que torna o Tour diferente das outras. Não é que o perfil das etapas do Tour seja mais duro do que por exemplo em Itália, mas a forma como se corre o Tour e o mediatismo que está à volta traz mais pressão psicológica para os atletas e para as equipas”, afirma.

Sobre ver o seu 5.º lugar ser melhorado por outro português, José Azevedo admite que gostava que tal acontecesse, porque “os recordes são para serem batidos”.

“Eu ficava contente que alguém conseguisse fazer melhor que o 5.º ou até melhor que o 3.º do Agostinho, acho que toda a gente ficava satisfeita, era importante para o ciclismo português, para os atletas portugueses e para o próprio país pelo prestígio que traria. Nesta altura há uma série de corredores com bastante potencial, mas é difícil estar a apontar um”, conclui.

2007 - 2014: Sérgio Paulinho

7682 dias, ou 21 anos, foi o tempo que o ciclismo português precisou para voltar a ver um atleta nacional a levantar os braços depois de vencer uma etapa individual no Tour. Depois da última vitória individual de Acácio da Silva, a 2 de julho de 1989, Portugal passava por um jejum de vitórias em etapas individuais, apesar dos resultados, como vimos com José Azevedo, não terem passado mal nesse período.

14 de julho de 2010, Dia da Bastilha, dia nacional de França. Corre-se a 10.ª etapa do Tour número 97 entre Chambéry e Gap, uma distância de 179 km com três contagens de montanha. A Radioshack, equipa de Sérgio Paulinho, atirava a toalha ao chão pelo objetivo da classificação geral depois de uma 8.ª etapa terrível em que Lance Armstrong, líder da equipa, caiu por três vezes e ficou arredado da disputa pelos lugares cimeiros. A equipa passava assim a lutar por vitórias em etapas.

“Nesse dia a missão de toda a equipa era ir para a fuga, fosse eu, fosse o Popovych, fosse quem fosse. A missão passava por ganhar etapas, porque na geral já não tínhamos ninguém para fazer os 10 primeiros”, revela-nos o ciclista que agora corre na equipa EFAPEL.

↖Os últimos momentos da etapa vencida por Sérgio Paulinho, pela Eurosport Portugal

A fuga acontece depois de uma hora de corrida, a seguir a uma meta volante, envolvendo vários ciclistas além de Paulinho, como Aerts, Dvernyns, Rolland e Kiryienka.

“Acabámos por nos aperceber que a fuga iria chegar quando passámos a primeira montanha e tínhamos cerca de 10 ou 12 minutos de vantagem, foi assim que nos apercebemos que a fuga ia chegar ao fim”, conta.

"No Tour é sempre complicado, porque toda a gente quer ganhar"

 

As 13,8 km do final, Paulinho ataca e Kiryienka, ciclista bielorrusso, persegue o ciclista luso: seria entre estes dois que a etapa seria decidida, uma ‘luta’ que seria sempre complicada.

“No Tour é sempre complicado, porque toda a gente quer ganhar. Mas quando estamos na fuga e sabemos que é a fuga certa, é claro que as expectativas crescem sempre”, afirma.

A 250 metros da linha de meta e depois de muito tempo na roda do bielorrusso, Paulinho ataca e vence a etapa por pouca margem, mas a suficiente para colocar um ponto final a uma seca de 21 anos de vitórias lusas no Tour, uma seca da qual o corredor nem se tinha dado conta.

“Claro que depois de cortar a meta e com as entrevistas dos meios de comunicação portugueses soube disso e é sempre uma satisfação para mim como português vencer uma etapa do Tour para o ciclismo português”, realça.

Sérgio Paulinho, depois de cortar a linha de meta
A celebração de Sérgio Paulinho após vencer a 10.ª etapa do Tour de 2010. (Photo by LIONEL BONAVENTURE / AFP)

Além de ter ‘matado o borrego’ das vitórias portuguesas, Sérgio Paulinho tornou-se ainda, em 2007, 2009 e 2013, no mais recente português a subir ao pódio da prova, nos Campos Elíseos – depois de Agostinho e José Azevedo - com a conquista da classificação geral por equipas pela Discovery Channel, Astana e depois pela Team Saxo-Tinkoff, vitórias que obrigam a muito planeamento, mas que trazem sensações que ficam na memória.

“Para nós é um momento inesquecível porque o Tour é, a nível de mediatismo, a melhor corrida a nível mundial e poder estar num pódio em Paris, para qualquer corredor, é sempre um motivo de orgulho”, rematou.

2009 - … : Rui Costa

Depois de um ano antes Paulinho ter colocado fim ao ‘jejum’, 2011 voltou a contar com um vencedor português no Tour de France, desta feita Rui Costa, que chegava ao seu terceiro tour, depois de participações nos dois anos anteriores.

A 9 de julho de 2011, quase um ano depois da última vitória lusa em etapas, o povoense, na altura corredor da equipa Movistar, corria a oitava etapa, entre Aigurande e Super-Besse Sancy, que terminava com uma montanha de terceira categoria.

O português integrou uma fuga desde cedo e foi persistindo, enquanto a concorrência ia diminuindo. Os últimos quilómetros foram a solo e Rui Costa venceu a sua primeira etapa no Tour com 12 segundos de vantagem sobre o belga Philippe Gilbert.

"Sempre foi um sonho poder vencer uma etapa"
Rui Costa vence etapa no Tour de 2011
Rui Costa clebra a vitória na 8.ª etapa do Tour de France 2011. (Photo by PASCAL PAVANI / AFP)

“Ainda não acredito que ganhei uma etapa no Tour. Sempre foi um sonho poder vencer uma etapa. Foi incrível. Na minha cabeça ainda não acredito que ganhei”, disse o ciclista, no final da tirada, em declarações citadas pela Agência Lusa.

Dois anos depois, em 2013, na edição número 100 da ‘Grande Boucle’, Rui Costa voltaria a levantar os braços graças a duas vitórias. A primeira a 16 de julho, na 16.ª etapa entre Vaison-la-Romaine e Gap, depois de uma fuga bem sucedida que o permitiu concluir com mais de 40’ segundos de vantagem sobre os perseguidores.

Três dias depois, chegou a segunda, novamente graças a uma fuga na última montanha, na 19.ª etapa entre Boung d’Oisans e La Grand Bornard, cruzando a meta com 48 segundos de vantagem sobre o alemão Andreas Klöden.

↖A chegada de Rui Costa a Le Grand Bornand

“Saí na altura certa e a partir daí foi impor o meu ritmo até ao fim da contagem de montanha e descer com cautela até à meta. Por pouco não ia caindo, mas o meu anjo da guarda vinha a olhar por mim e correu tudo bem”, escreveu na altura no seu site oficial.

Com as vitórias nesse ano, Rui Costa igualou o número de vitórias (três) em etapas de Acácio da Silva e ficou a uma do registo de Agostinho.

O ano de 2013 foi, de resto, um ano histórico para Rui Costa e para o ciclismo português, uma vez que, além das vitórias no Tour, o ciclista da Póvoa do Varzim sagrou-se campeão mundial de estrada, nos Mundiais de Florença, em Itália, tornando-se no primeiro português a envergar a camisola ‘arco-iris’.

Rui Costa , campeão do Mundo de Ciclismo
créditos: AFP ImageForum

Com nove Voltas a França no currículo e agora na Team UAE Emirates, Rui Costa está de fora da edição deste ano do Tour, estando presente na lista da equipa dos Emirados Árabes Unidos para a Volta a Espanha, naquela que será a sua segunda presença na prova de ‘nuestros hermanos’.

A 107.ª edição da Volta a França sai para a estrada no próximo dia 29 de agosto, para um percurso de mais de 3400 quilómetros até à chegada aos Campos Elíseos, em Paris, no dia 20 de setembro. Para já Nélson Oliveira, da Movistar, é o único português com presença confirmada na prova.

Artigo corrigido às 18:16

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