“Como falamos de uma elite nacional com elevadas competências psicoemocionais, a missão será ajudar atletas e treinadores que tenham alguma preocupação externa ou enfrentem situações adversas inesperadas, contribuindo para a facilitação do seu melhor desempenho naquele contexto”, explicou à agência Lusa a especialista.

Convidada há dois anos pelo presidente do COP, José Manuel Constantino, para integrar a estrutura médica chefiada por Gomes Pereira, Ana Ramires realça o acompanhamento psicológico que clubes e federações já têm municiado a alguns praticantes, técnicos e árbitros de topo, sobretudo numa perspetiva de esbater “resultados inconsistentes”.

“Procuram soluções para bloqueios que sabotam a sua performance, como a elevada ansiedade pré-competitiva, carências de concentração e de tomada de decisão, prejuízo da qualidade do treino e das relações nas semanas pré-competição ou dificuldades de entrar na zona de ativação que permitirá um desempenho de excelência”, enumerou.

Ana Bispo Ramires acentua a necessidade do alto rendimento apostar em profissionais devidamente especializados em psicologia do desporto, com vista a um “correto diagnóstico de necessidades” e à elaboração de um “plano de ação sob a forma de treino diário e sistematizado”, tal como acontece na preparação física, técnica e tática.

“Normalmente, só participa nas grandes competições quem tem essas três áreas otimizadas. Por isso se diz que as competências emocionais, ou seja, a capacidade de se manter extraordinariamente focado no momento competitivo, acabam por discriminar o sucesso”, atirou a mestre em Psicologia Desportiva pela Universidade do Minho.

Após mais de 20 anos a instruir para a otimização do rendimento em diversas profissões, Ana Ramires saúda o adeus ao estereótipo antigo de que “os psicólogos são para malucos”, graças a “algumas décadas de intervenção” no terreno e aos “testemunhos públicos de grandes atletas e treinadores”, embora o caminho esteja longe do fim.

“Urgem muitas ações de educação para documentar as estratégias de intervenção e informar como esta área contribui para o desenvolvimento equilibrado de uma pessoa que também é atleta, das equipas técnicas e das próprias estruturas”, notou, frisando a aposta do COP em profissionais reconhecidos pela Ordem dos Psicólogos Portugueses.

A entidade máxima do desporto português promove formações junto de treinadores, dirigentes, praticantes e pais, alertando para o peso das competências cognitivas e psicoemocionais na vida de quem compete, e disponibilizou um apoio adicional para os atletas do nível ‘Top Elite’ para Tóquio, que desejam juntar a psicologia ao treino.

É que as dificuldades para lidar com horários preenchidos, lesões, resultados negativos, pressões alheias ou sonhos inatingíveis encabeçam os motivos para bloqueios mentais, stress competitivo, e depressão na alta competição, ao ponto de despertarem consciências para o abandono precoce, nomeadamente na subida ao escalão sénior.

“O risco de ‘burnout’ [perturbação física e mental provocada pela sobrecarga de trabalho] eleva-se num quotidiano que não privilegie de igual forma as áreas académica, familiar e social, contribuidoras de um desenvolvimento equilibrado. É preciso algum engenho, sabedoria e treino para conseguir encaixar tudo em 24 horas”, pontuou.

Ana Bispo Ramires valoriza o culto por “outros interesses além da modalidade escolhida”, sob pena de os praticantes menorizarem “os afetos positivos e a confiança”, ficando reféns da “curta experiência” que um percurso desportivo comporta.

“Isso favorece resultados consistentemente mais elevados, aportando competências transversais que garantam uma transição mais fluida em final de carreira para outro projeto de vida com igual paixão e sucesso”, rematou.

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