O inédito adiamento de Tóquio2020 compôs uma “mensagem fortíssima” em prol de um “maior apaziguamento” dos atletas olímpicos portugueses, após semanas de indefinição motivadas pela pandemia da covid-19.

“Sentiram-se protegidos e esta decisão cai bem junto deles. Quem ainda não está qualificado, ganhou uma janela de oxigénio para promover uma melhor capacitação nesta quarentena e sabe que a preparação e o sonho não estão em risco. Mais tarde, cada um terá tempo para trabalhar e, se este período for bem aproveitado, aumentarão as suas hipóteses de qualificação”, constatou à agência Lusa a psicóloga Ana Bispo Ramires.

Os Jogos da 32.ª Olimpíada estavam previstos entre 24 de julho e 09 de agosto e foram prorrogados na terça-feira para uma data posterior a 2020 e nunca depois do verão de 2021, numa decisão conjunta do governo japonês e do Comité Olímpico Internacional (COI), tomada para salvaguardar a saúde pública de toda a comunidade envolvida.

“Esta informação vem reduzir os níveis de ansiedade, porque certos atletas já estavam a entrar numa fase de alguma negação, desilusão e frustração, mas falta saber como será operada esta mudança de datas e o que isso implicará no processo desportivo. Urgem respostas, para que isso também não seja fonte de ansiedade”, alertou.

Convidada há dois anos pelo presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP), José Manuel Constantino, a integrar a estrutura médica chefiada por Gomes Pereira, Ana Bispo Ramires vai oferecer no Japão um inédito apoio anímico aos praticantes nacionais, confinados a treinos caseiros e inseguros sobre o rasto do novo coronavírus.

“Ninguém está preparado para lidar com esta aceitação de enclausuramento e de que não estamos a controlar nada à nossa volta. Neste quadro, a resposta natural de qualquer ser humano é parar, mas os atletas são ‘bichos’ que tentam sempre encontrar soluções face à adversidade, evitando a menor perda possível na sua preparação desportiva”, explicou.

Defendendo que os praticantes de elite “lidam melhor” com a incerteza, se aportarem “competências psicoemocionais treinadas de forma sistematizada”, a especialista destaca a necessidade de serem municiadas ferramentas para que cada um exerça um “maior controlo” sobre o trabalho caseiro de otimização de atributos físicos, técnicos e mentais.

“É a altura ideal para melhorarem processos de treino que possam ser mais minuciosos e aos quais, por vezes, não dão tanta atenção, porque têm um plano competitivo muito sobrecarregado”, exemplificou, indicando que a Comissão de Atletas Olímpicos do COP disponibilizou uma linha de apoio para os atletas integrados na missão Tóquio2020.

Ana Bispo Ramires, que colaborou 10 anos com o departamento de futebol do Benfica, encara também o tempo indeterminado da pausa competitiva como um “espaço de oportunidade” para regular processos emocionais, preservar cuidados quanto à saúde mental e reforçar elos relacionais no conforto familiar.

“Muitos destes atletas passam a vida com a mala às costas entre competições internacionais. É uma boa altura para robustecerem laços com as suas pessoas significativas de vida, porque mal esta quarentena termine eles vão começar a ir novamente pelo mundo fora à procura da sua qualificação”, apontou.

Com mais de 20 anos a instruir para a otimização do rendimento em diversas profissões, a mestre em Psicologia Desportiva pela Universidade do Minho reconhece o “desafio extra” imposto à sociedade perante a propagação da covid-19, cuja “desinformação” está a criar “uma narrativa de medo na cabeça das pessoas” quanto às consequências da doença.

“Devemos centrar os nossos esforços naquilo que semeamos dia a dia, em prol do futuro que queremos ter no pós-quarentena. Para todos está aqui em causa aprender a lidar com a incerteza. Essa é a maior competência que podemos treinar com os atletas, focando-os na capacidade de aproveitar estes momentos para surgirem ainda mais fortes”, vincou.

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