Numa altura em que a atividade desportiva está suspensa, face à propagação do novo coronavírus, todos fomos obrigados a adaptar as nossas rotinas. E se para o comum dos mortais essa adaptação não é fácil, o que dizer daqueles que precisam de espaços para correr, saltar, nadar...

São esses casos que o SAPO Desporto procura dar-lhe a conhecer ao longo destas semanas, com os relatos de atletas de alta competição que procuram ajustar o seu dia a dia de treino intensivo dentro de quatro paredes.

Hoje falámos com Mónica Mendes, internacional portuguesa e defesa do AC Milan, que está em casa desde o dia 8 de março, numa das zonas mais afetadas pela pandemia, à espera de um eventual regresso do campeonato, ainda sem data anunciada.

SAPO Desporto: Como tem vivido este período de isolamento?

Mónica Mendes: Nestes últimos dias melhor, porque a partir desta última segunda-feira pudemos finalmente ter um bocadinho mais de liberdade, já se pode sair de casa, dar uma volta até ao parque, sempre sozinha e com máscara, logicamente, mas já há um pouco mais de liberdade. Antes era muito mais complicado movimentares-te na rua, havia muita polícia nas estradas e era tudo muito mais controlado. Mas tenho lidado bem com tudo isto, tenho tentado manter ao máximo a minha rotina e pensar de forma positiva.

SD: Milão faz parte de uma das zonas mais afetadas pela pandemia. O que lhe custou mais nestes dias de confinamento?

MM: Milão é uma cidade muito barulhenta, com muito trânsito e muita confusão. Incomodou-me bastante o silêncio que havia nas ruas, em que a única coisa que se ouvia era o som das ambulâncias, que passavam muitas vezes aqui perto de casa. Agora que passámos à fase 2 já se nota mais gente nas ruas, as pessoas começam a voltar ao trabalho, já é diferente, mas na altura aquele silêncio era assustador.

SD: Já há uma data definida para o regresso aos treinos?

MM: Em princípio, só a partir do dia 18 [de maio]. Até lá temos o plano de treinos que o Milan envia todas as semanas. Basicamente cada uma treina por sua conta, em casa, sempre de acordo com os exercícios designados pelo clube. Mas esta semana já pudemos treinar ao ar livre, sempre com todas as precauções.

SD: E em relação ao campeonato feminino?

MM: O documento oficial ainda não saiu, por isso ainda não se sabe nada ao certo. Temos de esperar mais um bocado para perceber o que vai acontecer.

SD: Como tem sido treinar em casa?

MM: O treino é igualmente exigente. Claro que não tenho todos os equipamentos de que necessito quando estou no clube, mas tive de me adaptar. Os exercícios que o clube manda também são feitos nesse sentido, com base naquilo que temos em casa. Com os treinos de força, por exemplo, uma vez que não tenho pesos, uso as paletes de água ou uma mochila cheia de livros para fazer agachamentos. Agora que podemos sair de casa também faço muita corrida... É adaptar o que temos para os exercícios que nos pedem. Mas a exigência e o empenho em cada treino mantêm-se. Obviamente que é sempre melhor treinar no clube, juntamente com a equipa, mas é possível atingir resultados estando em casa.

SD: Além dos treinos, como tem ocupado o tempo em casa? 

MM: Tento sempre manter a minha rotina. Acordo cedo, a parte da manhã é toda dedicada ao treino, depois almoço e à tarde vou encontrando coisas novas para fazer. Ontem fiz um puzzle, outras vezes ponho-me a dançar ou a cantar, a ler ou a ver filmes, outras vezes a apanhar sol, a cozinhar pratos diferentes... E falo muito com a minha família e com os meus amigos, tentar manter o contacto com as pessoas. E basicamente é isso, é falar com a minha família, com os meus amigos, manter o contacto com as pessoas... Basicamente aproveitei para aprender coisas que nunca tinha feito cá em casa. E a verdade é que já passaram imensos dias e continuo com o mesmo espírito positivo.

SD: A nível psicológico, acha que este período pode afetar o rendimento de um atleta de alta competição?

MM: Pode afetar, mas isso depende sempre do atleta. A meu ver, quando começou a quarentena, eu sabia logo que a parte mental ia ser tão ou mais importante que a parte física. Por isso a minha prioridade, estando em casa, era fazer coisas que me fizessem sentir bem. E também foi importante continuar a treinar e sentir que estava a progredir, a um nível mais individual. No meu caso, tudo isto só me tornou mais forte e ainda mais preparada para enfrentar qualquer adversidade.

SD: As competições desportivas devem ser retomadas este ano?

MM: Depende do país e das condições que os atletas vão ter se esse regresso acontecer, é tudo muito relativo. Aqui em Itália, o Milan tem estado sempre em contacto com o governo e com o ministério da Saúde para perceber o pode ser feito, juntamente com a Federação Italiana de Futebol. Todos esperamos jogar o campeonato e a Taça até ao fim, seja qual for o tempo estipulado. Se as entidades responsáveis avançarem e se disserem que sim, é para terminar, então é porque têm a certeza que todas as condições de segurança vão estar asseguradas. Tenho a certeza absoluta que a Federação Italiana, a Federação Portuguesa, e os clubes vão chegar à melhor solução para todos.

SD: Acha que o mundo vai ser diferente depois de tudo isto passar?

MM: Eu espero bem que sim. De uma maneira ou de outra, estamos todos afetados por esta situação. Espero que as pessoas tenham aprendido ou aprendam a dar mais valor ao que é realmente importante. Nesse sentido, a quarentena ajudou-nos a perceber que há coisas que são fundamentais e que não devemos deixar para amanhã. Acredito que as pessoas vão olhar para o mundo de uma outra forma e vão relacionar-se com os outros também de uma maneira diferente.

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