Faz quase um ano que o Benfica anunciou que ia entrar no futebol feminino, criar uma equipa e começar a competir na segunda divisão a partir da temporada 2018/19. A intenção já vinha de trás e surgiu numa altura em que outros clubes - caso do Sporting (bicampeão em título) e do SC Braga - já haviam dado o pontapé de saída numa modalidade em notório crescimento. Desvendada a intenção, os 'encarnados' foram compondo a equipa técnica e o plantel de 20 jogadoras "contratadas para o arranque de um grupo de trabalho que competirá para estar à altura das melhores expectativas dos adeptos”, segundo o comunicado divulgado pelo clube a 12 de dezembro.

A estreia no Campeonato de Promoção não podia ser mais impactante: vitória por 28-0 sobre o Ponte Frielas, uma goleada que selou um novo máximo no futebol português, mesmo que o adversário tenha sido obrigado a apresentar uma defesa central à baliza, face à ausência das guarda-redes. O resultado fez a nova equipa feminina do Benfica ser falada um pouco por toda a Europa. A BBC, por exemplo, destacou o facto de este ter sido o triunfo mais dilatado da história do futebol sénior em Portugal, superando os 21-0 do Sporting para a Taça de Portugal em 1971.

O que podia ser sorte de principiante repetiu-se nas jornadas seguintes, com uma goleada atrás da outra - a equipa voltaria a marcar 28 golos sem resposta contra o União de Almeirim, na quarta jornada. Com oito jogos disputados, o Benfica lidera a Série D do Campeonato de Promoção com 24 pontos, mais seis que o Sporting B, adversário que já teve oportunidade de defrontar, vencendo por 4-0. É ainda detentor de um registo impressionante de 165 golos marcados até ao momento - 145 na II Divisão a que se juntam os 20 apontados na Taça de Portugal - e zero sofridos. "Essa é uma das minhas metas individuais, chegar ao final do campeonato sem sofrer nenhum golo", revela a guarda-redes Dani Neuhaus, a primeira jogadora a reforçar o plantel 'encarnado'.

"Claro que a segunda divisão não é tão competitiva como a primeira, mas tínhamos de respeitar quem anda cá anda há muito tempo"

Apesar do arranque galvanizador, ninguém no plantel parece estar surpreendido com estes resultados. João Marques, o treinador, explica porquê. "A equipa foi construída nesse sentido. Foi um plantel escolhido a dedo, com muita qualidade, por isso sabíamos o que íamos encontrar. Claro que a segunda divisão não é tão competitiva como a primeira, mas tínhamos de respeitar quem anda cá anda há muito tempo. Vamos aproveitar esta época para trabalhar e melhorar", esclarece o técnico, que levou o SC Braga ao segundo lugar do campeonato nacional, em 2016/17.

Andreia Faria, uma das mais novas do plantel, com 18 anos, é a porta-voz da ambição que norteia esta equipa. “O nosso objetivo é marcar cada vez mais golos e não perder a concentração perante a facilidade que o Campeonato de Promoção tem. Mas já estávamos à espera deste arranque, até porque temos trabalhado para isso”, refere.

A diversidade faz a força

O plantel, composto por 11 portuguesas, sete brasileiras, uma espanhola e uma cabo-verdiana, com idades compreendidas entre os 17 e os 32 anos, bate certo com o que o Benfica, na apresentação oficial da equipa, deixou explícito: "Aposta em atletas portuguesas já consagradas, com experiência na Seleção A; um segundo grupo de jogadoras portuguesas mais jovens; e a integração de jogadoras que vieram de fora, principalmente do mercado brasileiro."

Dani Neuhaus, campeã pelo Santos em 2017, está a viver a primeira experiência fora do Brasil e é o exemplo perfeito dessa integração. "Sempre tive o sonho de sair do Brasil para jogar num clube que valorizasse o futebol feminino. Tive muita sorte de poder ir para o Benfica, um clube gigante que incentiva muito as jogadoras. E aqui nem há o problema de falar outra língua. Torna tudo muito mais fácil", conta a guarda-redes, de 25 anos, que contou com o apoio de um nome conhecido dos benfiquistas: "Tive uma longa conversa com o Leo [ex-lateral brasileiro] e ele falou-me da grandeza do clube, que ia ser muito apoiada aqui. Disse-me para mergulhar de cabeça e que não me ia arrepender".

Dani Neuhaus, guarda-redes do Benfica
Dani Neuhaus, guarda-redes do Benfica créditos: Cátia Leitão

Tanto Dani Neuhaus (seis jogos realizados) como Carolina Vilão (três) têm sido intransponíveis na baliza 'encarnada', não tendo ainda sofrido qualquer golo. Mas isso não significa que a tarefa seja mais fácil. "São jogos em que trabalho pouco, mas que me obrigam a estar muito concentrada", explica a primeira. "Houve um jogo em Almeirim em que estive 85 minutos sem tocar na bola, até que uma das jogadoras adversárias me obrigou a fazer uma defesa quando já estava com o corpo frio. A mais pequena coisa pode mudar tudo", alerta.

"Em Israel treinava duas, três vezes por semana. Não dava para viver do futebol. No Benfica sou tratada como uma atleta profissional"

Ana Alice, defesa central de 29 anos, nem pensou duas vezes antes de aceitar a proposta do Benfica. A experiente jogadora encontrava-se em Israel há dois anos, ao serviço do Kyriat Gat, depois de várias temporadas no futebol brasileiro. "Em Israel treinava duas, três vezes por semana. Lá o futebol feminino é muito amador, não dá para viver daquilo. Aqui sou tratada como uma profissional", afirma Ana Alice, que diz ter ficado surpreendida com as condições que encontrou nos 'encarnados'. "Tudo é diferente, desde os médicos à forma como são dados os treinos. Sinto-me muito apoiada", confidencia.

Com oito jogos realizados até ao momento, a 'patroa' da defesa benfiquista já teve oportunidade de mostrar alguns dotes goleadores - marcou em quatro ocasiões. Talvez por isso tenha Luisão e Jonas como referências. "Quem me dera ser um dia tratada com o mesmo carinho e fazer história nesta equipa como eles fizeram na deles", refere.

Reportagem SAPO Desporto
Ana Alice, defesa do Benfica créditos: Cátia Leitão

A formação como 'bandeira'

A injeção de talento oriundo de outros países, como é o caso das já referidas Dani Neuhaus e Ana Alice, mas também de Darlene, melhor marcadora do Campeonato de Promoção, Daiane Rodrigues, a mais velha do plantel, com 32 anos - todas elas internacionais pelo Brasil -, ou da espanhola Ana Pauleta, faz parte do projeto do Benfica para esta temporada, mas no futuro não será assim.

"Queremos ser uma referência a nível nacional e levar muitas jogadoras à seleção"

"Neste primeiro ano fomos buscar alguma experiência a nível estrangeiro para que as nossas jogadores da formação também pudessem evoluir. Mas a curto prazo o Benfica entende (e bem) ter mais atletas formadas no clube. Queremos ser uma referência a nível nacional e queremos também colocar muitas jogadoras na nossa seleção", explica o treinador João Marques.

Beatriz Cameirão tem apenas 17 anos, faz parte da equipa sub-19 do Benfica, mas ultimamente tem integrado o plantel sénior, fruto de algumas baixas. Com três golos apontados em quatro jogos, é um dos exemplos da aposta das 'águias' em atletas da formação. Foi, aliás, essa premissa que levou a jovem médio a mudar-se do Alentejo para a capital.

“Jogo futebol desde os seis anos. O meu irmão e o meu primo estavam sempre a incentivar-me para jogar, lá em Reguengos de Monsaraz. Comecei por participar em vários torneios com a Seleção de Évora e a Seleção Nacional [como internacional sub-17]. Fui ganhando visibilidade no meio e o Benfica contratou-me este ano”, conta. “O Benfica tem a vantagem de apostar muito na formação, tanto no futebol como nas modalidades. E isso chamou-me a atenção. Porque os mais novos é que vão criar o futuro do clube”, defende.

Reportagem SAPO Desporto
Beatriz Cameirão, médio do Benfica créditos: Cátia Leitão

No momento em que anunciou a entrada no futebol feminino, o emblema da Luz indicou que seria mantida "a ligação às escolinhas e à formação", a pensar nas jovens atletas "que no passado não tiveram uma solução de continuidade e que agora poderão apontar para um percurso que vise a alta competição". Luís Andrade, coordenador técnico da modalidade desde outubro, encontra-se neste momento a projetar a futura equipa B, que está prevista arrancar "no próximo ano".

"O objetivo passa por fazer a transição do futebol 9 para o futebol 11, para que as jogadoras que chegam da formação ganhem outro sentido posicional no terreno. A equipa B vai ser importante para dar ritmo competitivo antes de se atingir a equipa principal", afirma o ex-futebolista, que diz ter ficado agradavelmente surpreendido com a "qualidade" das jovens atletas que encontrou. "Acredito que jogadoras sub-19 como a Beatriz Cameirão poderão daqui a um curto espaço de tempo jogar na equipa principal com regularidade", vaticina.

Profissionais, sim, mas sem esquecer os livros

As 20 jogadoras que estão às ordens de João Marques são todas profissionais. Ana Filipa Lopes, conhecida por Tita, teve, inclusive, de suspender a profissão de fisioterapeuta em Pedrogão Grande, de onde é natural, para representar o Benfica. Mas há quem tente conciliar os estudos com o futebol. Andreia Faria, de 18 anos, escolheu estudar Economia na Universidade Católica de Lisboa, já a pensar na "efemeridade do futebol".

"É sempre complicado porque não conseguimos fazer as duas coisas a 100%. Mas quero tentar conciliá-las enquanto puder, porque são duas paixões. E eu acredito mesmo que quem corre por gosto não cansa", garante a centro-campista. Beatriz Cameirão está a terminar o 12.º ano, mas já decidiu que quer prolongar os estudos. “Quero continuar no futebol enquanto puder, mas também gostava de ter uma base de estudos para quando esta vida acabar. Se o futebol masculino não dura para sempre, o feminino ainda menos. Mas ainda não sei o que quero seguir", revela.

Os treinos no Estádio da Tapadinha - resultado de um protocolo estabelecido com o Atlético - são diários, quase sempre de manhã, o que lhes permite conciliar o futebol com os estudos. "É importante que as atletas não esqueçam os estudos, importante para elas e para nós. Temos todas as condições para que as duas vertentes sejam conciliadas da melhor forma. É perfeitamente possível termos jogadoras-estudantes", sublinha Luís Andrade.

Um sonho chamado Jamor e a mensagem de Vieira

Andreia Faria não esquece as palavras de Luís Filipe Vieira, que fez questão de marcar presença na Tapadinha para assistir à estreia oficial da equipa feminina, tendo endereçado algumas palavras às jogadoras. “Disse-nos que confiava em nós e pediu-nos para honrarmos o Benfica. Sabemos que estamos num clube com muita história e de grande exigência. Estamos a trabalhar para provar isso mesmo. Foi um jogo especial”, admitiu a jovem médio, natural de Vila Real, que até já é comparada a... Pizzi. "Jogo na mesma posição que ele e gosto muito de fazer assistências, de ter a bola nos pés. Ainda não o conheci pessoalmente, mas gostava”, confidencia.

Andreia Faria, médio do Benfica
Andreia Faria, médio do Benfica créditos: SL BENFICA

A discrepância entre o Benfica e as restantes equipas que competem no Campeonato de Promoção - para ter noção existe uma diferença de 80 golos marcados entre o primeiro e o segundo classificado - traz a questão da falta de competitividade que a sua equipa pode encontrar neste escalão. "Sabíamos que isso ia acontecer. Contornamos isso nos treinos, onde tentamos criar o máximo de dificuldade possível para as jogadoras evoluírem nesse sentido, ou nos jogos amigáveis que preparamos com equipas masculinas, de escalões inferiores", revela João Marques, que garante um plantel preparado para voos mais altos.

"Esta equipa foi preparada a pensar na competição máxima, que é a primeira divisão"

"Esta equipa foi preparada a pensar na competição máxima, que é a primeira divisão. Temos alguns ajustes e algumas coisas para trabalhar, mas este plantel já está preparado para a dificuldade máxima e é para isso que trabalhamos dia a dia. Liga dos Campeões? Isso é um patamar completamente diferente. Penso que o Benfica neste momento tem é de pensar em subir à primeira divisão, e depois sagrar-se campeão para ter acesso à Champions. É um objetivo que o Benfica quer atingir, de facto, mas ainda há muito trabalho para fazer", refere.

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Ana Alice aponta a conquista da Taça de Portugal como "o principal objetivo da época", a par da subida à I Divisão. Na prova-rainha, as 'águias' terão a possibilidade de defrontar equipas do principal escalão. E há quem torça para que o primeiro dérbi da história do futebol feminino (entre equipas A) aconteça já nesta época. "Jogar um dérbi motiva mais do que qualquer outro jogo, sem dúvida", diz Dani Neuhaus. Andreia Faria, por sua vez, prefere deixar o encontro com o Sporting para o Jamor: "Seria uma final bem disputada e possivelmente iria levar mais adeptos ao estádio."

E se as recentes goleadas podem ter tido o condão de despertar os benfiquistas para a sua equipa feminina, todos acreditam que o exemplo do Benfica ajudará a chamar mais clubes e praticantes para a modalidade. "Primeiro tivemos um Sporting e um SC Braga, agora temos um Benfica a entrar na corrida... Não podíamos ficar indiferentes ao crescimento do futebol feminino. Tenho a certeza que será uma questão de tempo até clubes de maior dimensão entrarem neste mundo", defende João Marques.

João Marques, treinador do Benfica créditos: Cátia Leitão

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